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Archive for the ‘Cinema’ Category

Batman #608, arte de Jim Lee e Scott Williams

Batman, The Killing Joke, Alan Moore e Brian Bolland

Depois do sucesso de Iron Man este Verão, os super-heróis atacam de novo em força as salas de cinemas com o novo filme de Batman, O Cavaleiro das Trevas, realizado por Christopher Nolan, o sexto filme em torno do herói.

Criado por Bob Kane na década 30, Batman, o herói sem super-poderes e o alter-ego do magnata Bruce Wane, em conjunto com um carismático grupo de vilões, tornou-se imensamente popular ao longo das décadas e originou uma série de adaptações para rádio, cinema e televisão. Nos anos oitenta, a personagem foi revitalizada através de uma série de BD’s icónicas de autores como Frank Miller ou Alan Moore, culminando no primeiro filme de Batman, realizado por Tim Burton.

Os dois filmes de Tim Burton, Batman (1989) e Batman Returns (1992) , foram seguidos por Batman Forever (1995) e Batman & Robin (1997) de Joel Schumacher, mas a última adaptação foi de tal forma crucificada pelo público e crítica que a popularidade de Batman caiu a pique, sendo consequentemente ridicularizado e enterrado por Hollywood.

Seriam precisos outros oito anos e um realizador como Christopher Nolan (Memento, Insomnia) para ressuscitar Batman e criar uma nova imagem ambiciosa, em sintonia com o melhor que a história de Batman tinha para oferecer. Batman Begins (2005) vai de encontro às raízes da personagem, oferecendo um retrato convicente e realista de Gotham City e os seus habitantes.

E agora a sequela, O Cavaleiro das Trevas, atingiu as salas de cinema nas últimas duas semanas, desencandeado uma nova onda de popularidade massiva, que iguala o sucesso criado em torno do Homem-Aranha.

O Cavaleiro das Trevas regressa à realidade dura e negra de Gotham City, mas desta vez Bruce Wayne/Batman (Christian Bale) tem de enfentar o seu arqui-inimigo, o Joker (Heath Ledger). Muitas das expectativas do filme foram geridas em torno da figura icónica do Joker, já anteriormente bem representada por Jack Nicholson, mas a tragédia afectou a produção do filme quando seis meses antes da estreia, o actor Heath Ledger faleceu de overdose acidental de medicamentos.

Mesmo tendo já terminado as suas cenas, a sua morte súbita e prematura concentrou ainda mais as atenções num filme já de si muito esperado e popular. No entanto, esquecendo todos os acontecimentos que rodearam a produção do filme, o Cavaleiro das Trevas tem muito para oferecer em matéria de entretenimento e boa acção.

Em primeiro lugar, é sempre um prazer ver uma adaptação de um herói da banda-desenhada extremamente levada a sério, como deveria ser (longe vão os tempos da série televisiva protagonizada por Adam West…). A figura de Batman tem um lado negro que é totalmente explorado e exposto por Nolan, muitas vezes equiparando-o ao psicótico Joker. Uma nova personagem é introduzida, Harvey Dent, o procurador-geral empenhado em limpar Gotham City da corrupção e libertá-la das garras da Máfia. Mas o Joker, um criminoso com cicatrizes no rosto e maquilhagem de palhaço, tem os seus próprios planos e liberta uma onda de caos que abala os alicerces de Gotham.

Se há algo a apontar ao filme é talvez o caos excessivo. As cenas de acção sucedem-se umas às outras numa velocidade vertiginosa e por vezes torna-se difícil acompanhar o ritmo frenético. Mas algumas dessas cenas são maravilhosas (alternando com outras menos conseguidas); a abertura com o roubo do banco, as imagens aéreas impressionantes de Gotham (na realidade, Chicago) e Hong kong, o funeral do comissário de polícia, a perseguição de Batman e Joker pelas ruas de Gotham, e muitas outras que talvez devessem ter sido alternadas com mais diálogos ou cenas psicológicas em torno de Bruce Wayne, do qual infelizmente vê-se pouco. Ou dar mais destaque ao uso perverso da tecnologia para proteger os cidadãos, ao mesmo tempo que viola os seus direitos. E certamente que a tecnologia desempenha um papel importante, pois provavelmente os gadgets de Batman fariam corar de vergonha o James Bond.

O resultado final é um grandioso espectáculo com um argumento complexo e de difícil montagem, absolutamente centrado no combate ao crime, e não é inteiramente mal sucedido, embora talvez devesse ter sido mais temperado com alguma da angústia, pathos e evolução psicológica de Bruce Wayne apresentada em Batman Begins. Claro que um elenco de actores de cinco estrelas faz maravilhas e são todos extremamente competentes em representar as suas personagens, em especial, Gary Oldman como o detective Gordon, Aaron Eckhart no papel de Harvey Dent e Heath Ledger como o Joker. Mas não é despropositado referir que não basta ver uma vez, mas repetidas vezes, se queremos captar os detalhes da história na sua totalidade.

Batendo recordes de bilheteira no fim de semana de abertura nos EUA, é curioso notar que os dois maiores sucessos de 2008 tenham sido, até agora, adaptações de super-heróis ao grande ecrã, nomeadamente, o Homem de Ferro e o Batman. Estamos a viver a era dourada dos super-heróis da banda-desenhada (seja DC Comics, Marvel, ou outra qualquer) e muitas outras adaptações vêm a caminho, prontas para tomar de assalto o público e mostrar-lhe o universo rico da banda-desenhada.


O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan está actualmente em exibição nas salas de cinema portuguesas

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Early in the 21st Century, THE TYRRELL CORPORATION advanced Robot evolution into the NEXUS phase—a being virtually identical to a human—known as a Replicant.
The NEXUS 6
Replicants were superior in strength and agility, and at least equal in intelligence, to the genetic engineers who created them.
Replicants were used Off-world as slave labor, in the hazardous exploration and colonization of other planets.
After a bloody mutiny by a NEXUS 6 combat team in an Off-world colony,
Replicants were declared illegal on earth—under penalty of death.
Special police squads—BLADE RUNNER UNITS—had orders to shoot to kill, upon detection, any trespassing
Replicant. This was not called execution.
It was called retirement.

É com estas linhas que abre o filme Blade Runner – Perigo Iminente, um dos grandes clássicos do cinema de ficção científica de regresso às salas de cinema. Por ocasião dos 25 anos desde a sua data de estreia, é exibido o final cut, considerada a versão defintiva pelo seu realizador, Ridley Scott.

O filme teve um tremendo impacto em toda a produção cinematográfica do final do século, com os seus cenários distópicos futuristas, criando um futuro negro e verosímil, que desafia o espectador a reflectir sobre as grandes questões da Humanidade, sobre vida e imortalidade, sobre o inevitável avanço da tecnologia e a decrepitude da raça humana, sobre o papel divino de Homem e a sua incapacidade para lidar com a sua criação. Há muito a dizer sobre o filme, abrindo portas para um poço inesgotável de questões.

Baseado na obra de Phillip K. Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep?, o filme estreou pela primeira vez em 1982, tendo então sido um fracasso de bilheteira. Sucessivas gerações de espectadores reconheceram-no como uma obra-prima e rapidamente tornou-se um filme de culto, sendo hoje considerado pelo público e crítica como um dos filmes pós-modernistas mais influentes do século XX.

A história envolve um Blade Runner de nome Rick Deckard (Harrison Ford) que é forçado a ir em perseguição de cinco replicantes foragidos em liberdade no planeta Terra. Como líder dos replicantes, Roy Batty (Rutger Hauer) sabe que em breve eles irão morrer, devido a um mecanismo de segurança que limitou a vida dos replicantes a apenas quatro anos. Desesperado para prolongar a vida e evitar a morte, confronta o seu próprio criador, a Tyrrell Corporation.

À medida que envelhecem, os replicantes gradualmente tornam-se cada vez mais humanos e anseiam por experiências emocionais. São anjos perfeitos caídos em desgraça e Roy lamenta o fim prematuro das coisas que viu e experienciou. A sociedade mostra nenhuma compaixão para com estas máquinas avançadas e, um por um, são abatidos.

Mesmo com a angústia que aparentemente habita o coração da história, o amor sobrevive e a luz que bate nos rostos das personagens é a luz de uma ténue esperança num mundo em que o Homem perdeu o controlo das suas acções e onde as máquinas se tornaram o nosso próprio Lúcifer incompreendido e marginalizado pelos céus inclementes.

As temáticas filosóficas e humanísticas presentes em Blade Runner , juntamente com os cenários urbanos distópicos e depressivos, e uma assombrosa banda sonora ao cuidado dos Vangelis, dotaram o filme de uma profundidade raramente vista num filme de ficção científica e tornou-o o exemplo máximo de excelência que ainda hoje não foi igualado, num tempo em que o cyberpunk e thrillers futuristas pós-apocalípticos abundam nas livrarias e salas de cinema.

Não percam a experiência única de ver Blade Runner num ecrã de cinema. Podem encontrá-lo em exibição nos salas de cinema Corte Ingles, em Lisboa.


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Desde a conclusão da trilogia O Senhor dos Anéis realizada por Peter Jackson, e considerando o avassalador fenómeno que se seguiu que permitiu ao género da literatura fantástica ganhar um protagonismo nunca antes visto, temos assistido a várias tentativas da parte dos grandes estúdios em repetir essa grande façanha que foi a trilogia.

Quase todos os anos desde 2003, temos tido direito a filmes de fantasia com elevados custos de produção, lançados especialmente na época natalícia. As Crónicas de Narnia, O Leão, a Bruxa e o Guarda-Fatos, baseado na obra de C. S. Lewis, tentou reproduzir o sucesso da trilogia de Tolkien, mas longe de atingir os resultados esperados.

Em 2006 começou uma nova tentativa de emular o sucesso tolkieniano, desta vez, recorrendo à célebre trilogia dos Mundos Paralelos (His Dark Materials) do britânico Phillip Pullman. Já anteriormente escrevi sobre os livros neste blogue, e confesso o meu fascínio e admiração pela imaginação e profundidade da obra de Pullman.

A campanha dispendiosa de marketing gerada em torno da adaptação do1º livro, The Golden Compass (Os Reinos do Norte), assim como a inclusão de nomes célebres como Nicole Kidman, Eva Green e Daniel Craig no elenco, originou expectativas quiçá demasiada elevadas.

Mas antes do julgamento, um breve resumo da história. Num mundo onde os humanos caminham lado a lado com as suas almas, os deamons, uma jovem rapariga de nome Lyra Belacqua está à guarda dos anciãos de Jordan College, em Oxford. Indomitável e rebelde à autoridade, Lyra toma conhecimento de estranhos eventos em torno de uma substância misteriosa, o Pó, através do seu tio, Lord Asriel.

Mas antes que Lyra inicie a sua demanda, Mrs. Coulter entra em cena e encarrega-se por um tempo da sua educação longe de Oxford. Mulher e criança entram em conflito e Lyra decide fugir. Em paralelo, as crianças de Oxford estão a ser raptadas por um grupo conhecido como Gobblers e Roger, o melhor amigo de Lyra, é raptado. Com a ajuda de ciganos e um instrumento de nome aletiómetro (a bússola dourada, voilá) ela decide partir em busca de Roger, começando uma aventura maior do que vida que irá afectar todos os mundos paralelos.

Posso dizer com grande segurança que A Bússola Dourada foi um dos maiores fracassos cinematográficos do ano 2007. E totalmente merecido.

Em primeiro lugar, deviam ter mudado o título para O Regresso do Rei Urso Polar. Teria feito mais sentido face ao protagonismo dado ao urso Iorek e a sua luta para recuperar o poder que lhe foi retirado por um urso vilão. Os ursos estão a lutar. Os ursos estão a pensar e a conspirar e a envenenar nas sombras, qual tragédia de Shakespere. Os ursos estão a lutar de novo. Esperem! ESPEREM! Um dos ursos morreu…!

Havia uma história relacionada com pó, mas não sei onde foi parar e as poucas referências que houve a pó estavam inteiramente fora de contexto e algumas até despropositadas.

A actriz escolhida para o papel de Lyra, Dakota Blue Richards, não conhece a diferença entre bravura e petulância. Lyra tem uma grande dose de arrogância que é temperada por coragem e sofrimento e é compreensivelmente difícil para uma adolescente encontrar a medida certa para interpretar a personagem de Lyra. Raramente simpatizei com Dakota Blue Richards e no lugar de Mrs. Coulter teria-lhe dado mais sopapos. Até a relação de Lyra com o aletiómetro não tem piada nenhuma.

Há coisas boas, claro. A recriação do mundo de Pullman é impecável graças aos efeitos especiais. Algumas cenas estão inteiramente fiéis ao livro, como todas as cenas em redor de Bolvangar. As cenas na casa isolada no meio do gelo onde Lyra encontra uma criança que tinha sido submetida à experiência Bolvangar não é má de todo. E antes que me acusem de esperar por um filme inteiramente fiel ao livro, digo em minha defesa de que tudo o que queria era um argumento bem escrito, consistente, fiel ao espírito da obra, mas encontrei exactamente o oposto.

Voltando ao filme. A personagem de Mrs. Coulter é muitas vezes incompreensível para quem não leu os livros, dada a reacções que só devia manifestar numa fase avançada da história. Tanto lhe dá espetar um estalo no macaco dourado, como deixar-se levar por sentimentalismos perante uma fotografia de Lyra. Algumas personagens interessantes foram sub-aproveitadas como Serafina Pekkala ou Lee Scoresby.

Daniel Craig como Lord Asriel tem muito que se lhe diga, extremamente fascinante, mas uma personagem incompleta, mutilada, precisamente porque decidiram tirar toda a cena final do livro. Só com a cena final, a personalidade e as ambições de Asriel tornam-se visíveis aos olhos de todos.

Com essa decisão, o clímax do filme dá-se com a libertação das crianças, salvas pelos nossos heróis intrépidos (e o urso…). O filme termina com a bruxa Serafina Pekkala a mencionar a profecia das bruxas e uma referência à guerra que virá. Guerra?! Que guerra, pensarão os espectadores se nem tiveram sequer referências suficientes neste filme para perceber o conflito que irá ter lugar no 3º volume, The Amber Spyglass? Como pode um espectador se emocionar ou empatizar com esta miserável adaptação quando está tudo retalhado, colado, mal interpretado, ou fora de contexto?

Mas é perfeitamente evidente que este filme foi criado, tendo em mente de que o público é estúpido e não é capaz de compreender coisas minimamente complexas. Estou farta de filmes de fantasia que escolhem tratar as suas audiências como desprovidas de qualquer massa cinzenta e que só percebem as coisas quando estão claramente delineadas entre o bem e o mal, entre o branco e o preto com muita acção à mistura.

Como eles irão apresentar o conflito que gera toda a narrativa da trilogia? Terão eles a coragem de retratar Deus como a figura cruel e decrépita que ele é no livro? E se não, de que vale continuar a adaptar estes filmes para o grande ecrã, se toda a sua essência é eliminada?

E porque escolher eliminar toda a recta final do livro, relegando-a para o 2º filme? Porquê escolher terminar o filme antes do grande momento final em que Asriel comete um acto de enorme crueldade e Lyra toma o primeiro passo em direcção a outros mundos paralelos para nunca mais voltar a ser a criança que era?

O melhor é ler os livros apenas, esquecer esta adaptação atroz e incompetente, concentrar-se em saborear a leitura das aventuras de Lyra. Alguns filmes simplesmente não valem o preço do bilhete.

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LW

O que é uma narf, interrogam-se os espectadores do último filme de M. Night Shyamalan. Outra interrogação pertinente que passa pela cabeça do público, o que pretende este filme? Chamar a atenção das pessoas para a importância das histórias e de como deve ser preservada a arte do contador de histórias de modo a que a vida ainda detenha algum sentido?

As intenções são nobres, mas o meio de as concretizar nem sempre bem sucedido. O melhor que posso dizer acerca de A Senhora da Água será o facto indisputável das suas ideias serem boas e merecerem palmas, mas a realização simplesmente não parece estar à altura, deixando-se levar por um enredo que roça, por vezes, o absurdo.

M. Night Shyamalan, ele próprio um dos protagonistas de Lady in the Water, (dispensando desta vez com as aparições hitchcockianas), tem lutado para sustentar as suas visões cinematográficas povoadas de elementos fantásticos e os seus próprios ideais sobre vida, morte e o mundo em que vivemos.

Em O Sexto Sentido, um rapaz é aterrorizado por visões dos mortos, até se aperceber da necessidade de enfrentar os seus medos de modo a que possa encontrar o seu lugar no mundo. Em O Protegido, um homem dotado de extraordinários poderes tem que lidar com a sua condição de super-herói num mundo gradualmente cada vez mais desprovido de salvação. A Vila, talvez o trabalho mais refinado e artístico do realizador, considero-o um exercício interessante sobre alienação e o desejo de salvaguardar tudo o que consideramos de mais precioso, para longe do perigo.

Em A Senhora da Água Shyamalan tenta alertar para a beleza das histórias, como podem redimir almas que sucumbiram a passividade e ao cizentismo de um mundo demasiado cruel. A narf, ou mehor, ninfa do mar (Bryce Dallas Howard), que é encontrada uma noite na piscina do condomínio no qual trabalha Cleveland Heep (Paul Giamatti), chama-se ela própria Story.

Bela e vulnerável, com uma fragilidade que quase comove o coração, uma rainha entre os da sua espécie, representa a metáfora perfeita para as histórias e é o tesouro do filme, o bem precioso pelo qual vale a pena assistir esta obra, mesmo que tudo o resto falhe. Ameaçada por forças maléficas, a ninfa procura refúgio em Cleveland Heep que terá que descobrir a sua história e desvendar os segredos do Mundo Azul.

Mas depois observamos o que rodeia a ninfa. E torcemos o nariz. E remexemo-nos desconfortavelmente na cadeira. Quase pestanejamos de sono. Acabamos por encarar o grande ecrã com um cepticismo e uma incredulidade que é tudo o que o filme merece. A antiga lenda oriental da narf é revelada aos poucos, mas o que deixa um sabor amargo na boca é a figura um pouco patética de Paul Giamatti a procurar por aqueles que irão salvar a ninfa. Uma pessoa poderia compreender perfeitamente tudo como um conto de fadas. Claro que não estão em causa os elementos fantásticos do filme, mas até contos de fadas podem falhar em produzir uma suspensão de descrença se não forem bem concebidos.

A Senhora da Água torna-se um pote de ideias mal evoluídas e mal expressas, embora as intenções sejam meritórias. Desde a bizarra introdução da personagem de um escritor destinado a mudar o mundo com a sua escrita (o próprio Shyamalan num excesso de pretensiosismo), até um sem número de personagens unidimensionais e quase caricaturais, resta a tarefa ingrata de salvar o filme a Paul Giamatti, com uma interpretação que luta por ser convincente, e acima de tudo, a Bryce Dallas Howard, perfeita e extraordinária como narf indefesa e frágil.

Uma pessoa não se pode deixar de interrogar até se Shyamalan não tinha intenções de assumir este filme como uma crítica acerbada ao papel dos críticos de cinema/livros, empenhados em destruir e desconstruir analiticamente as obras de arte até não restar nada. A personagem do crítico, que até mesmo em frente do perigo, procede a analisar tudo de forma fria, é quem mais periga a vida de Story ao induzir Heep em erro. E quando ele diz a dado momento, Já não existe mais originalidade no mundo, não será M. Night Shyamalan a questionar o papel dos críticos, demasiado implacáveis no seu estatuto?

Mas independentemente das opiniões do realizador, a personagem do crítico, quando questionado sobre um filme que vira, diz algo que confesso não ser tão despropositado referir em relação ao próprio Lady in the Water, It sucked.

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Como foi aqui anunciado há alguns dias, o filme Mirrormask de Dave McKean foi exibido no Fórum Lisboa por ocasião do Festival de Cinema Independente. Não faltei a esta oportunidade no dia 24, onde ao longo de quase duas horas pudemos assistir, num auditório cheio, à exibição de Máscara de Espelho.
vendetta
Se o filme ganhou adesão nos festivais onde foi exibido e conseguiu a atenção do público terá sido em grande parte devido ao efeito Gaiman. O nome de Neil Gaiman já adquiriu nos últimos anos um efeito semelhante ao toque de Midas, transformando em ouro todos os projectos em que se vê envolvido. A notoriedade foi alcançada primeiramente no mundo da Banda Desenhada, através de Sandman, mas nos últimos anos a sua actividade de romancista permitiu-lhe um novo destaque, tornando-o um dos autores mais bem estabelecidos e reputados no meio e fora dele. Fantasias urbanas contemporâneas como American Gods, Neverwhere e Anansi Boys (brevemente publicado em português) combinam mitologia com elementos da realidade, construindo uma ficção que não se limita a contar histórias meramente pela arte do entretenimento, mas também como veículo de reflexão.

Mirrormask não é uma excepção à regra. A história envolve uma protagonista adolescente, Helena, filha de artistas de circo e que, ao contrário de muitas crianças, deseja apenas uma vida normal. Nas suas horas livres, demonstra talento para ilustração e nos seus desenhos constrói um mundo imaginativo. A relação conflituosa com a mãe e a vida de circo mostram-nos uma rapariga que passa o tempo em fantasias escapistas, e não é de estranhar então que os seus sonhos ir-lhe-ão abrir outras portas, a um mundo onde a palavra realidade não se aplica. Não fossem os sonhos um dos temas favoritos de Gaiman, proporcionando-lhe episódios férteis de criatividade.

Neste universo paralelo onírico, Helena aprende a verdade sobre as leis que regem esse mundo, ameaçado por uma rainha das trevas que procura por uma filha perdida, e que é na realidade o alter-ego da jovem, o seu Mr. Hyde. A filha da rainha das trevas deu uso a um encantamento, o mirrormask que lhe permitiu escapar para o mundo de Helena. Ambas trocam lugares e a pouco e pouco apercebemo-nos de que a rapariga se encontra enclausurada no próprio mundo ilustrado que criou e obtém vislumbres da outra Helena através de pequenas janelas. Para pôr fim à usurpação da princesa das trevas, a jovem terá que encontrar o encantamento Mirrormask.

Para um espectador familiarizado com o trabalho dos estúdios Henson, e especialmente para aqueles que passaram parte da sua infância ou adolescência a conviver com o show dos marretas, mas especialmente outros trabalhos como The Storyteller, Dark Crystal ou Labyrinth, filmes que saíram dos estúdios Jim Henson nos anos 80, e duas décadas depois adquiriram uma qualidade e um estatuto que os tornou bem amados e lembrados para todo o sempre, reconhece facilmente a marca Henson em Mirrormask nos cenários, na qualidade visual e etérea da fantasia, e nas próprias criaturas criadas que tão espantosamente ganham vida através da voz, dos gestos e expressões faciais.

Às vezes, aliando os efeitos especiais a uma realização competente assente numa história simples, consegue transcender-se essa simplicidade e obter um bom filme, mas este não é o caso.

Tenho sérias dúvidas de que Mirrormask consiga obter esse reconhecimento para a posteridade como esses trabalhos mais antigos que remontam aos anos 80. Esqueçamos o nome de Neil Gaiman nos créditos e temos nas mãos uma história bastante convencional e desinspirada que, nem por um momento, conseguiu incutir-me sense of wonder. Poderia ter sido uma história contada por um mestre contador de histórias, mas torna-se aborrecido no ecrã e nunca realmente apelativo. É um mundo de papel e cartão com uma personagem demasiado cliché, Valentine, um malabarista com uma interpretação e humor sofríveis, e todo o filme e a sua quest limitam-se a confirmar temas básicos e recorrentes na obra de Gaiman, nomeadamente, a identidade, o amor da família, mas principalmente, a passagem conturbada da adolescência para o mundo adulto, simbolizado na confrontação entre um mundo marginal e o mundo real. A criança terá que aceitar quem é e descobrir a suas próprias forças de forma a poder aceitar a realidade. É, no fundo, um teste.

Não importa o facto de ser um filme de baixo orçamento. Isso nunca foi um impeditivo para a realização de bons filmes, mas este é na realidade um filme medíocre e muito insatisfatório para um público cada vez mais exigente dentro do género, a nível de argumento. Teria feito talvez mais sentido nos anos 80, ao lado de obras como História Interminável, e mesmo este demonstra muito maior mérito, mas não agora, depois de termos visto, só para dar um exemplo, os soberbos filmes de animação de Miyazaki como A Viagem de Chihiro ou O Castelo Andante.

Esperava-se muito mais de Gaiman. Muito mais. Mas precisamente por causa da sua reputação, Mirrormask permanecerá na memória dos espectadores. O tempo julgará se será visto com uma opinião mais benéfica do que aquela que lhe atribuo hoje.

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Para o final do mês de Abril, estão reservadas algumas boas surpresas para os cinéfilos de Lisboa. Dois festivais abrem as portas e são eles a III Edição do Indie Lisboa e o certame Fantasporto em Lisboa, uma selecção de alguns dos filmes que foram exibidos no último Fantasporto.

Indie

O Indie Lisboa vai de força em força e tem vindo a manter uma tradição de destaque ao melhor que se tem feito no cinema independente mundial. Este ano os interessados têm ao seu dispor uma vasta programação composta por 282 filmes e que decorre de 20 a 30 de Abril em locais como o Fórum Lisboa e os cinemas King e Londres, num total de seis salas de exibição.

Para além da secção de Competição Oficial de Longas e Curtas-Metragens que exibirá filmes nunca antes apresentados em Portugal, destaca-se o Observatório onde concorrem algumas obras que merecem a nossa atenção.

  • Mirrormask de Dave McKean, feito em colaboração com o argumentista e escritor Neil Gaiman conta a história de Helena, uma rapariga de quinze anos, que decide largar a sua vida no circo e ver o mundo “real”. Mas, quando dá por si, já embarcou numa estranha viagem às Dark Lands, habitada por gigantes, PássarosMacaco e perigosas esfinges. Para fugir das Dark Lands, Helena terá que alcançar a Mirrormask.

    20 Abril, 21h30, King 3 • 24 Abril, 18h30, Fórum Lisboa

  • The Wild Blue Yonder do grande cineasta alemão Werner Herzog parte da hipótese de um grupo de astronautas em missão espacial ser impedido de regressar à Terra. O planeta tornou-se inabitável (as razões não são explicadas) e a tripulação é obrigada a descobrir um local no espaço para aterrar. Entretanto, na Terra, um extraterrestre proveniente de um planeta que submergiu na água, revela estar a viver no nosso planeta há vários anos (a trabalhar ao serviço da CIA), e explica que descobrir um outro planeta habitável no espaço é uma missão talhada para o fracasso. Agora imaginem tudo isto ancorado em imagens dolorosamente belas.

    20 Abril, 21h00, Londres 2 • 23 Abril, 14h45, Londres 1

Bilhetes à venda a partir de 12 de Abril no Fórum Lisboa, no King e no Londres para sessões nos respectivos locais
Bilhetes: 3€ • Bilhetes com desconto: 2.50€

Mantendo a onda alternativa, mas seguindo uma direcção decididamente fantástica, seja ela horror, fantasia ou ficção científica, temos o Fantasporto em Lisboa, uma iniciativa em cooperação com a Inatel e o cinema Quarteto, que decorre de 21 a 29 de Abril.

O filme de vampiros sueco Frostbiten, e vencedor do Grande Prémio do Fantasporto 2006, foi escolhido como filme de abertura numa programação composta por onze filmes de várias origens a que podem aceder no site oficial.

Para além do vencedor, outras obras curiosas como Fausto 5.0, Hair High e A Quiet Love podem ser vistos no final deste mês. A dificuldade está na escolha.

Bilhetes à Venda no Cinema Quarteto a partir de 6 de Abril
Preços: 3€ / Associados: 2,5€ / Passe 9 bilhetes: 15€

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Remember, remember the 5th of November
Gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot.

Esta rima popular inglesa relembra um momento em que uma figura histórica inglesa, Guy Fawkes, membro de um grupo de católicos conspiradores, falhou na sua tentativa de bombardear o Parlamento, em 1605, e assassinar o rei Jaime I. As verdadeiras razões que originaram a conspiração ainda hoje permanecem largamente desconhecidas, mas o que é certo é que Fawkes foi capturado e executado por traição. O que não impediu que ganhasse estatuto de culto e que ainda fosse relembrado, quatrocentos anos depois, numa celebração anual a 5 de Novembro.

É com a história, um tanto ou quanto romantizada, deste conspirador que abre o filme V de Vingança ( V for Vendetta) do realizador James McTeigue, mas admitamos, um realizador fantoche nas mãos do talento criativo dos irmãos Wachoswki, autores do guião. E os irmãos Wachowski, para quem viveu em Marte nos últimos seis anos, são os mentores do fenómeno Matrix.

vendetta

O filme retrata a luta de um homem, Guy Fawkes ressuscitado, que oculta o rosto por detrás de uma máscara e assume-se como principal arquitecto de um plano que visa derrubar o governo fascista, detentor de absoluto poder numa Inglaterra futura e distópica. Auto-intitulado como V, torna-se a encarnação de um ideal de resistência e revolução que não hesita em recorrer a qualquer meio para fazer passar a sua mensagem e atingir os seus fins.

Na origem da personagem intrigante de V está o argumentista Alan Moore e o artista David Lloyd que deram à estampa pela primeira vez a odisseia deste homem de identidade desconhecida em 1982, na extinta magazine britânica Warrior. Seria o início de uma colaboração que culminou na colectânea de todas as séries impressas em formato graphic novel, sob os auspícios da DC Comics. As relações entre Alan Moore e a DC Comics são um assunto que faria correr muita tinta e discussão, e sobre o qual não me irei debruçar. A ruptura entre o argumentista e a companhia deveu-se a uma série de incompatibilidades que já vinham desde os anos 80 e atingiram a gota de água com o presente filme. Como consequência, a pedido de Alan Moore, o seu nome não é mencionado nos créditos. Para uma melhor compreensão dos problemas que deram origem a este facto lamentável, recomendo a leitura de uma entrevista recente de Alan Moore e que pode ser lida no seguinte site.

Alguma crítica cinematográfica portuguesa tem vindo a referir que esta decisão da parte do argumentista deveu-se essencialmente ao seu desagrado pela adaptação de V for Vendetta, quando na verdade era uma decisão inevitável, independentemente do filme ser uma obra-prima ou não. Aliás, havendo algum filme a culpar é, sem dúvida, a péssima adaptação de A Liga dos Cavalheiros Extraordinários.

V for Vendetta insere-se numa longa linha de literatura distópica que já se iniciara no séc. XIX, vindo a ganhar contornos bem definidos no séc. XX, com autores inovadores e que actualmente dispensam apresentações; Zamyatin, Huxley, Orwell. É de facto, num cenário tipicamente orwelliano, que se movem as personagens de Moore e Lloyd, e ao qual é prestada a devida homenagem através do actor John Hurt (que encarnou a personagem de Winston no filme 1984).

Nem sempre o traço de David Lloyd é preciso como deveria ser. Por vezes, não é fácil distinguir os rostos das personagens e a transição entre o enredo principal e as várias linhas secundárias da história, relacionadas com figuras de poder, também não o facilitam, mas, na verdade, a BD rompeu com os estereótipos de super-heróis e combatentes pela justiça, preocupando-se essencialmente em construir uma personagem que obriga o leitor a questionar os alicerces sociais e políticos, e a relação de quase demência estabelecida entre o indivíduo e o Estado que o governa, ou melhor, controla. Surgindo num contexto específico, o da governação Thatcher, Moore colocou em V as sementes do anarquismo, como ele deveria ser entendido na sua verdadeira definição, em contraponto a um estado totalitário que vigia, censura e silencia.

Mas para melhor compreender V, devemos olhá-lo à luz da sua relação com Evey Hammond, a rapariga que ele salva, numa noite, das garras da polícia. Uma relação estranha e ambígua muito melhor explorada na novela gráfica, ao passo que o filme limita-se a uma linearização que culmina no cliché do amor declarado na hora da morte. Banalidades destas aparte, dever-se-á considerar o filme à luz de outros momentos mais interessantes.

É sempre a relação entre V e Evey que constitui o centro vital e dinâmico da história, atingindo novas alturas na cena da tortura e interrogatório. V força Evey a descer ao abismo da sua alma, de forma a poder melhor compreender todo o medo e a prisão em que tinha sido enjaulada. E embora seja uma nova Evey , menos inocente e mais sabedora, a que se insurge, não deixa de confrontar V com a sua própria natureza monstruosa. Nem sempre apoia os seus actos, e muitas vezes condena-o pela sua natureza implacável e vingativa.

Não há uma definição fácil e estereotipada desta homem mascarado que tanto é considerado um terrorista, como um defensor da liberdade. Um produto monstruoso do próprio governo que pretende destruir, V torna-se essencialmente uma ideia, um símbolo político que repudia a ideia de controlo e censura e é o desencadeador do processo que visa cima de tudo anarquia, mas não caos. Anarchy means “without leaders”, not “without order”. This is not anarchy, Eve. This is chaos.

Perante uma tão forte mensagem política, os irmãos Wachowski mantém-se fiéis ao espírito das ideias da BD, embora estas sofram uma actualização para os nossos tempos. De facto, e nunca pensei vir a dizer isto, mas o enredo do filme chega a fortalecer alguns aspectos fracos da BD, em especial, a justificação que conduziu à ascensão do governo fascista no Reino Unido; a ideia de um ataque biológico orquestrado pelo próprio governo contra os seus cidadãos encaixa que nem uma luva na já complexa teia de acontecimentos. E pode-se afirmar que, embora as histórias secundárias tenham sido eliminadas a bem do ritmo narrativo, permanece fiel à BD, recriando momentos emblemáticos como a dança ao som da jukebox, a história da actriz Valérie, e até o desconcertante vestido de Evey no encontro com o bispo.

Uma outra personagem de destaque trata-se de Gordon (que só partilha com o Gordon da BD o nome) e no qual encontramos a problemática da censura nos media. Com a personalidade incontornável do actor britânico Stephen Fry, Gordon tornou-se o homem do espectáculo forçado a submeter-se às regras do Partido. Mas a sua admiração pela arte e cultura obrigam-no também, à semelhança de V, assumir uma máscara e ocultar a sua persona. Não sem que antes decida realizar a sua própria vingança contra o Chanceler Adam Sutler e elaborar uma sátira pela qual acabará por pagar um preço elevado.

As cenas finais são talvez as que produzem um maior aturdimento no público , em especial a cena do dominó, enquanto Finch está sentado na esquadra a relatar as últimas notícias de caos e violência que começam a germinar na sociedade, por intervenção de V. Mas para um filme interessado em passar uma mensagem claramente revolucionária, não teria sido sensato manter bem definidas as fronteiras entre caos e anarquia? Quem vê o filme não julgará que basta o caos para derrubar um regime fascista, o bombardeamento de uns edifícios simbólicos para se iniciar uma nova era de paz e fraternidade? É nessa direcção que se revelam as maiores falhas de V for Vendetta e o tornam um produto inferior à grande linha de cinema distópico. Existe uma revolução, mas não existe uma reflexão sobre as consequências dessa revolução, apenas uma visão naïve de que os fachos devem ser eliminados, de modo a permitir que a liberdade prevaleça.

A graphic novel poderia já não ser a subtileza em pessoa, mas havia uma abordagem mais honesta e menos maniqueísta à questão, colocada em termos demasiado lineares no filme. E no fim de tudo isto sobra um filme com uma realização de pouco brilho, com alguma cinematografia desinspirada (basta ver a cena de forte carga simbólica em que é rapada a cabeça a Natalie Portman, totalmente desperdiçada), mas um argumento que deixa o espectador com muito para pensar e tavez seja adequado o momento em que chega, um momento em que a conjuntura política actual não dá azo a grandes optimismos.

Na interpretação, a voz de Hugo Weaving é teatral o suficiente para dar corpo à máscara. Natalie Portman bem tenta, mas ainda lhe falta alguma maturidade para um papel deste género. Samantha Morton teria sido uma escolha bem mais adequada para Evey, mas faltará a esta actriz o grau certo de estrelato. De um elenco secundário competente, sobressai John Hurt com a sua eloquência dominada pelo fervor e exaltação nacionalistas.

Em termos artísticos é que, infelizmente, V fica uns quantos furos abaixo da fasquia.
E convenhamos, não acrescenta nada de novo ao que já tinha vindo a ser escrito e feito anteriormente, com muito maior brilhantismo. Mas será talvez a obra que tenha capturado, com maior impacto, uma mistura de bom entretenimento com assuntos que exigem uma maior consciência e reflexão da parte do público.

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Coisa Ruim

Pela primeira vez na história do festival, o Fantasporto 2006 abre a competição internacional com um filme nacional. A honra coube ao novo filme de terror Coisa Ruim, com realização de Tiago Guedes e Frederico Serra, e que estreia esta noite, dia 24, no Teatro Rivoli.

BadBlood

Baseado num argumento original de Rodrigo Guedes de Carvalho, a longa-metragem conta a história de um a família lisboeta que recebe uma casa no interior como herança. Mas com a casa vem uma maldição em que os mortos se querem vingar dos vivos. Descrito como uma narrativa que combina o genuíno fantástico etnográfico português com os temas do terror “tout court”, esta nova iniciativa cinematográfica promete levar os espectadores portugueses às salas de cinema com uma produção de qualidade surpreendente e um elenco que tem sido elogiado pelos bons desempenhos.

O feedback tem sido até agora positivo e o humorista Nuno Markl escreve no seu blog:

Hoje fui a um visionamento privado do filme que, se houver justiça neste mundo, será um merecidíssimo êxito de bilheteira português (mesmo, lá está, sem enormes seios). Eis um filme que aprendeu lições com o cinema lá de fora (vejo aqui influências de SHINING, O EXORCISTA, talvez de WICKER MAN e do lado mais sinistro das pequenas comunidades que arrepiava em CÃES DE PALHA, de Sam Peckimpah, mas também se nota forte probabilidade do Tiago e do Frederico terem andado a ver alguns espécimes do terror mais húmido, lento e intrigante do fantástico oriental), mas que não deixa de ser um pedaço de cinema profundamente português.

Tiago Guedes já realizara uma longa-metragem, o telefilme Alta Fidelidade que estreou na SIC em 2000, e várias curta-metragens. Coisa Ruim é o seu primeiro trabalho para o cinema e tem estreia nacional marcada para 2 de Março.

Título original
Coisa Ruim

Realização
Tiago Guedes e Frederico Serra

Intérpretes
Adriano Luz, Manuela Couto, Sara Carinhas, Afonso Pimentel, João Santos, José Pinto, João Pedro Vaz, Elsa Lisboa, Filipe Duarte, Gonçalo Waddington, Maria D’Aires, Miguel Borges

Duração
100 min.

Produção
Madragoa Filmes, ICAM, RTP

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Uma das mais amadas séries de fantasia, a saga Earthsea (Terramar) de Ursula Le Guin, vai ser transformada numa animação dos estúdios Ghibli. A realização está a cargo de Goro Miyazaki, filho de Hayao Miyazaki.

Com o título Gedo Senko, que poderia ser traduzido como a história militar de Gedo, o filme irá girar em torno da figura do feiticeiro Ged, misturando vários episódios da sua vida, retratados ao longo dos primeiros três volumes.

Relembre-se que a série é composta por cinco volumes, todos já disponíveis na língua portuguesa pela Editorial Presença, e tinha já sido adaptada para uma mini-série televisiva que foi publicamente repudiada pela autora. De acordo com fontes japonesas, Miyazaki assegurou os direitos num encontro que teve com Ursula Le Guin, aquando a sua visita aos Estados Unidos, por ocasião da estreia de Howl’s Moving Castle.

A estreia no Japão está prevista para Julho de 2006.

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Após um Verão pouco digno de nota no campo cinematográfico, o último trimestre do ano reserva-nos algumas das mais aguardadas estreias, pratos fortes tanto dentro como fora da área do fantástico. Neste momento, os destaques vão para o regresso de Terry Gilliam com Os Irmãos Grimm, já presente nas salas portuguesas, e contando com as interpretações de Matt Damon, Heath Ledger e Monica Bellucci.

O filme conta a história de dois irmãos charlatões, Jacob e Wilhelm Grimm, que ganham a vida à custa de aldeões, fazendo-os acreditar que podem protegê-los contra monstros e criaturas falsas. Até ao momento em que são confrontados com verdadeira magia e obrigados a entrar numa floresta encantada governada por uma rainha feiticeira.

Terry Gilliam, que ficará para a história como o eterno Monty Python, tem outros títulos marcantes na sua carreira de realizador com um decisivo pendor para o bizarro e fantástico, como Brazil, O Barão Munchausen e Twelve Monkeys. Já famoso pelas suas atribuladas produções cinematográficas, Os Irmãos Grimm não escapou também a sucessivos obstáculos e adiamentos. Todavia, as críticas não têm considerado este seu último filme como das melhores obras na carreira do realizador.

Outra estreia em destaque é Serenity de Joss Whedon, baseado na série televisiva Firefly, que sobreviveu apenas a uma temporada, tendo sido prematuramente cancelada pela FOX. Whedon, o criador de Buffy, a Caçadora de Vampiros, conseguiu levar a sua história de uma pequena tripulação num distante futuro a tentar sobreviver numa nave especial às salas de cinema e o público aderiu, acolhendo favoravelmente a criação de Whedon. O filme estreou em Portugal na quinta-feira passada.

No mesmo dia, chegou o primeiro de uma trilogia russa, Night Watch de Timur Bekmambetov. Tendo como pano de fundo o livro Night Patrol de Sergey Lukyanenko, o filme é fiel ao melhor estilo dos ambientes negros e distópicos, com efeitos especiais primorosos, e uma história que coloca em confronto as forças das Trevas contra os forças da Luz, numa trégua que a qualquer momento irá culminar no Apocalipse.

Esta semana, temos uma nova estreia no fantástico, no dia 13, se bem que bastante atrasada tendo em conta que o filme data de 2004, e trata-se do último filme do cineasta japonês Hayao MiyazakiHowl’s Moving Castle – O Castelo Andante. A obra de Miyazaki dispensa apresentações desde que conquistou definitivamente os espectadores com as últimas obras – Princesa Mononoke e a A Viagem de Chihiro.

Baseando-se numa obra juvenil de Diana Wynne Jones, o animé conta a história de Sophie, uma jovem rapariga que herdou a loja de chapéus do pai. Um dia, pouco depois de ter conhecido o feiticeiro Howl, Sophie é amaldiçoada por uma bruxa. Abandonando a vila, Sophie voltar-se-á a cruzar de novo no caminho de Howl e o seu castelo andante.

As estreias mais relevantes nao ficam por aqui e avizinha-se nos próximos meses um interesse renovado por cinema fantástico, tão só devido ao novo filme de Harry Potter e a animação The Corpse Bride de Tim Burton, como devido aos filmes Crónicas de Narnia de Andrew Adamson e King Kong de Peter Jackson, ambos com estreia mundial prevista para Dezembro.

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