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Archive for Janeiro, 2008

Desde a conclusão da trilogia O Senhor dos Anéis realizada por Peter Jackson, e considerando o avassalador fenómeno que se seguiu que permitiu ao género da literatura fantástica ganhar um protagonismo nunca antes visto, temos assistido a várias tentativas da parte dos grandes estúdios em repetir essa grande façanha que foi a trilogia.

Quase todos os anos desde 2003, temos tido direito a filmes de fantasia com elevados custos de produção, lançados especialmente na época natalícia. As Crónicas de Narnia, O Leão, a Bruxa e o Guarda-Fatos, baseado na obra de C. S. Lewis, tentou reproduzir o sucesso da trilogia de Tolkien, mas longe de atingir os resultados esperados.

Em 2006 começou uma nova tentativa de emular o sucesso tolkieniano, desta vez, recorrendo à célebre trilogia dos Mundos Paralelos (His Dark Materials) do britânico Phillip Pullman. Já anteriormente escrevi sobre os livros neste blogue, e confesso o meu fascínio e admiração pela imaginação e profundidade da obra de Pullman.

A campanha dispendiosa de marketing gerada em torno da adaptação do1º livro, The Golden Compass (Os Reinos do Norte), assim como a inclusão de nomes célebres como Nicole Kidman, Eva Green e Daniel Craig no elenco, originou expectativas quiçá demasiada elevadas.

Mas antes do julgamento, um breve resumo da história. Num mundo onde os humanos caminham lado a lado com as suas almas, os deamons, uma jovem rapariga de nome Lyra Belacqua está à guarda dos anciãos de Jordan College, em Oxford. Indomitável e rebelde à autoridade, Lyra toma conhecimento de estranhos eventos em torno de uma substância misteriosa, o Pó, através do seu tio, Lord Asriel.

Mas antes que Lyra inicie a sua demanda, Mrs. Coulter entra em cena e encarrega-se por um tempo da sua educação longe de Oxford. Mulher e criança entram em conflito e Lyra decide fugir. Em paralelo, as crianças de Oxford estão a ser raptadas por um grupo conhecido como Gobblers e Roger, o melhor amigo de Lyra, é raptado. Com a ajuda de ciganos e um instrumento de nome aletiómetro (a bússola dourada, voilá) ela decide partir em busca de Roger, começando uma aventura maior do que vida que irá afectar todos os mundos paralelos.

Posso dizer com grande segurança que A Bússola Dourada foi um dos maiores fracassos cinematográficos do ano 2007. E totalmente merecido.

Em primeiro lugar, deviam ter mudado o título para O Regresso do Rei Urso Polar. Teria feito mais sentido face ao protagonismo dado ao urso Iorek e a sua luta para recuperar o poder que lhe foi retirado por um urso vilão. Os ursos estão a lutar. Os ursos estão a pensar e a conspirar e a envenenar nas sombras, qual tragédia de Shakespere. Os ursos estão a lutar de novo. Esperem! ESPEREM! Um dos ursos morreu…!

Havia uma história relacionada com pó, mas não sei onde foi parar e as poucas referências que houve a pó estavam inteiramente fora de contexto e algumas até despropositadas.

A actriz escolhida para o papel de Lyra, Dakota Blue Richards, não conhece a diferença entre bravura e petulância. Lyra tem uma grande dose de arrogância que é temperada por coragem e sofrimento e é compreensivelmente difícil para uma adolescente encontrar a medida certa para interpretar a personagem de Lyra. Raramente simpatizei com Dakota Blue Richards e no lugar de Mrs. Coulter teria-lhe dado mais sopapos. Até a relação de Lyra com o aletiómetro não tem piada nenhuma.

Há coisas boas, claro. A recriação do mundo de Pullman é impecável graças aos efeitos especiais. Algumas cenas estão inteiramente fiéis ao livro, como todas as cenas em redor de Bolvangar. As cenas na casa isolada no meio do gelo onde Lyra encontra uma criança que tinha sido submetida à experiência Bolvangar não é má de todo. E antes que me acusem de esperar por um filme inteiramente fiel ao livro, digo em minha defesa de que tudo o que queria era um argumento bem escrito, consistente, fiel ao espírito da obra, mas encontrei exactamente o oposto.

Voltando ao filme. A personagem de Mrs. Coulter é muitas vezes incompreensível para quem não leu os livros, dada a reacções que só devia manifestar numa fase avançada da história. Tanto lhe dá espetar um estalo no macaco dourado, como deixar-se levar por sentimentalismos perante uma fotografia de Lyra. Algumas personagens interessantes foram sub-aproveitadas como Serafina Pekkala ou Lee Scoresby.

Daniel Craig como Lord Asriel tem muito que se lhe diga, extremamente fascinante, mas uma personagem incompleta, mutilada, precisamente porque decidiram tirar toda a cena final do livro. Só com a cena final, a personalidade e as ambições de Asriel tornam-se visíveis aos olhos de todos.

Com essa decisão, o clímax do filme dá-se com a libertação das crianças, salvas pelos nossos heróis intrépidos (e o urso…). O filme termina com a bruxa Serafina Pekkala a mencionar a profecia das bruxas e uma referência à guerra que virá. Guerra?! Que guerra, pensarão os espectadores se nem tiveram sequer referências suficientes neste filme para perceber o conflito que irá ter lugar no 3º volume, The Amber Spyglass? Como pode um espectador se emocionar ou empatizar com esta miserável adaptação quando está tudo retalhado, colado, mal interpretado, ou fora de contexto?

Mas é perfeitamente evidente que este filme foi criado, tendo em mente de que o público é estúpido e não é capaz de compreender coisas minimamente complexas. Estou farta de filmes de fantasia que escolhem tratar as suas audiências como desprovidas de qualquer massa cinzenta e que só percebem as coisas quando estão claramente delineadas entre o bem e o mal, entre o branco e o preto com muita acção à mistura.

Como eles irão apresentar o conflito que gera toda a narrativa da trilogia? Terão eles a coragem de retratar Deus como a figura cruel e decrépita que ele é no livro? E se não, de que vale continuar a adaptar estes filmes para o grande ecrã, se toda a sua essência é eliminada?

E porque escolher eliminar toda a recta final do livro, relegando-a para o 2º filme? Porquê escolher terminar o filme antes do grande momento final em que Asriel comete um acto de enorme crueldade e Lyra toma o primeiro passo em direcção a outros mundos paralelos para nunca mais voltar a ser a criança que era?

O melhor é ler os livros apenas, esquecer esta adaptação atroz e incompetente, concentrar-se em saborear a leitura das aventuras de Lyra. Alguns filmes simplesmente não valem o preço do bilhete.

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Em 2006, foi criada a revista Bang!, dirigida pelo editor da Saída de Emergência, Luís Corte Real, com Rogério Ribeiro a assumir a responsabilidade do cargo de editor. Apesar dos esforços de divulgação, a revista em formato papel deu origem apenas a 3 números (incluíndo o número 0). Todavia, assistindo-se a um contínuo interesse do público pela literatura fantástica, assim como, um crescente número satisfatório de downloads de outros ebooks produzidos, foi decidida a continuação da Bang! em formato digital gratuito. Nas palavras do editor Luís Corte Real:

Depois de três números (porque o n.º 0 também conta), chegámos à conclusão que era trabalho a mais para colocar apenas 250 revistas nas livrarias. Revistas essas que se vendiam a 3.90 € cada (caras, portanto) e que mesmo assim não se conseguiam pagar (prejuízo, portanto). […] Chegámos portanto à conclusão que das duas, uma: ou cancelávamos a Bang! ou encontrávamos uma alternativa. A alternativa que escolhemos foi a que tem em frente aos olhos. A Bang! deixou de ser uma revista com apenas 250 exemplares em papel para se transformar num PDF que contamos ter milhares de downloads.

A nova edição que surge conta com mais páginas e textos maiores. Dois ensaios merecem particular destaque, Sobre o Fantástico na Literatura Portuguesa por David Soares e A Perspectiva Alienígena por João Seixas. Não poderia deixar de destacar também o texto do Rogério Ribeiro sobre o Fórum Fantástico 2007, Apanhar as canas do FF2007.

E os leitores potenciais escritores podem começar a limpar o pó de manuscritos, se querem participar no Prémio Bang! 2008, cujo regulamento encontra-se disponível no ebook. Espera-se que a criação deste prémio possibilite o surgimento de novas vozes portuguesas na área do fantástico.

No campo da ficção, há muito por onde escolher. Começamos por um texto da autoria de João Barreiros, Fantascom, sobre uma inusital covenção de literatura fantástica, e ainda um conto de Vasco Luís Curado em que a tentativa de apagar um antigo amor da memória tem consequências trágicas. Destaque também para Dois Contos Súbitos de Luís Filipe Silva.

Material não falta para abrir o apetite e a participação na Bang! está aberta a todos os interessados, uma vez que a revista oferece ainda incentivos adicionais para quem quiser experimentar a sua sorte e submeter contos ao editor.

Podem fazer aqui o download da única revista portuguesa de fantástico.

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