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Archive for Abril, 2007

Quando Jesus veio para fora, usando a coroa de espinhos e a capa de púrpura, disse-lhes Pilatos: “Eis o homem!”

btm.jpegEstas são as palavras do Evangelho de S. João que inspiraram a controversa obra de ficção científica da autoria de Michael Moorcock, Eis o Homem (Behold the Man).

Inicialmente publicada como novela na revista New Worlds, nos anos 60, o livro conta a história de Karl Glogauer, um homem dos anos 70, que viaja no tempo até ao ano 28 a. C., e testemunha os eventos cruciais que determinaram a crucificação de Jesus de Nazaré em Jerusalém.

Mais do que uma testemunha dos eventos, Karl é forçado a enfrentar os verdadeiros factos sobre a vida de Jesus, mas impelido por um complexo messiânico, gradualmente assume a persona de Jesus Cristo, pregando as palavras que lera na Bíblia às multidões. Em paralelo, as memórias da sua vida passada expõem-no como um homem neurótico e obcecado pela ideia do Messias.

Surgindo no contexto social e histórico dos anos 70, a obra questiona a credibilidade da figura de Cristo, através da subversão e reinterpretação da mitologia universal cristã. Através da personagem de Karl, Michael Moorcock dá lugar às suas reflexões sobre os conceitos nunca lineares de ilusão e fé, religão e o modo como influenciam a psique humana.

Um romance polémico: E se Maria fosse uma libertina, José um velho amargo e Jesus apenas um deficiente mental?
Em “Eis o Homem”, Moorcock explora várias questões filosóficas: é importante Jesus ter realmente existido? será que algo tem de acontecer históricamente para que o mito à sua volta tenha significado? Em suma, o que é mais importante, a fé ou a História?

Já disponível nas livrarias, do mesmo autor de A Saga de Elric, o Príncipe dos Dragões.

Sobre Michael Moorcock

Michael Moorcock, Eis o Homem, Saída de Emergência P.V.P.: 13,23€

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Naquilo que é possivelmente um dos lançamentos mais mediáticos do ano em literatura fantástica, a par da conclusão da saga Harry Potter prevista para o verão, a editora britânica Harper-Collins anuncia o lançamento mundial a 17 de Abril do muito aguardado The Children of Hurin de JRR Tolkien.

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Com uma primeira tiragem mundial de 500 000 exemplares e os direitos vendidos para mais de 25 países, está longe de ser apenas uma mera compilação de notas, mas é antes uma narrativa coerente, a título póstumo, de uma das mais antigas histórias a surgir da imaginação do autor, desenrolando-se muito antes dos acontecimentos presentes na trilogia O Senhor dos Anéis, mais precisamente, seis mil anos antes da guerra do anel.

Os livros de JRR Tolkien foram catapultados para a fama após a adaptação cinematográfica de Peter Jackson da trilogia O Senhor dos Anéis, um evento marcante e que despertou as massas para o potencial da literatura fantástica, um ramo da literatura fértil há já muitas décadas.

Um professor de Oxford, JRR Tolkien detinha conhecimentos vastos em literatura anglo-saxónica e escandinava. Tendo sido grandemente inspirado pelas antigas epopeias nórdicas e pelo Kalevala, um poema épico finlandês, assim como, autores que pertenceram à primeira vaga de fantasia moderna como Andrew Lang, William Morris, George MacDonald e Lord Dunsany, o autor deu início à criação do seu próprio corpus mitológico, centrado na Terra Média.

Várias eras decorrem na Terra Média e em todas elas, são contadas histórias de grandes feitos, pequenas e grandes tragédias a nível individual ou universal, que encarnam valores como redenção, auto-sacrifício, coragem, honra, mas também, a inexorabilidade do destino e o triunfo do amor sobre as forças malignas que ameaçam a terra e os seus habitantes, inspirando milhões de leitores e tornando-o num dos autores de fantasia mais populares de sempre.

Os Filhos de Húrin não é a primeira história a ser publicada após a morte do autor em 1973. Já antes, o filho, Christopher Tolkien, o guardião do espólio literário do professor de Oxford, fora o responsável pelo O Silmarillion, uma colectânea dos principais mitos que constituíam os alicerces da ficção Tolkieniana, e para muitos dos fãs, possivelmente, a sua melhor criação. Surgiram também os doze volumes de History of Middle Earth, embora não tão vocacionados para o público em geral.

Mas Os Filhos de Húrin será o primeiro livro, dos recentemente editados, a ter a capacidade de se assumir ao nível de O Senhor dos Anéis. E é absolutamente trágico. Os finais de Tolkien muito raramente são finais felizes. As suas histórias contém um sabor doce e amargo, e a vitória anda sempre a par com um profundo sentimento de perda e mágoa. Isto será ainda mais verdade em Os Filhos de Húrin.

Num tempo muito remoto, muito, muito antes de O Senhor dos Anéis, um grande país se estendia para além dos Portos Cinzentos a Ocidente: terras por onde outrora caminhou Barba de Árvore mas que foram inundadas no grande cataclismo com que findou a Primeira Era do Mundo.

Nesse tempo remoto, Morgoth habitava a vasta fortaleza de Angband, o Inferno de Ferro, no Norte; e a tragédia de Túrin e a sua irmã Nienor desenrola-se sob a sombra do medo de Angband e a guerra forjada por Morgoth contra as terras e cidades dos Elfos.

Uma das 25 ilustrações da autoria de Alan Lee criadas para Os Filhos de Húrin. Possivelmente Nienor a contemplar a figura distante de Turin Turambar.

Uma publicação póstuma, a história contida neste livro foi iniciada pelo seu autor há várias décadas, mais precisamente em 1914. Avaliando os excertos contidos em O Silmarillion e Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média, é talvez uma das criações mais negras de Tolkien. É uma história sobre maldição e a impossibilidade de escapar a uma condenação ditada por deuses cruéis. A história sobre a incapacidade de um homem de assumir as rédeas do seu próprio destino e desafiar as forças que aprisionam e limitam a sua vida.

Hurin, um dos maiores guerreiros humanos quando a Terra Média ainda era jovem, é aprisionado por Morgoth e amaldiçoado por se recusar a trair os elfos. Accorrentado de forma mágica a uma cadeira num alto pico, é forçado cruelmente a assistir a todos os males que se abateram sobre a sua própria família. O seu filho, Túrin, faz jus à memória do pai, mas ao longo das suas inúmeras batalhas, tragédia marca todas as suas acções e todos os que o amam.

As críticas, até agora, têm-no considerado uma justa homenagem ao autor e um bom complemento aos livros de tom infanto-juvenil como O Hobbit e As Aventuras de Tom Bombadill, superando até o tom crescente de sobriedade e gravidade de O Senhor de Anéis, para se tornar numa das mais belos e intensos de todos os livros que narram a mitologia da Terra Média.

A edição portuguesa irá estar disponível nas livrarias a 17 de Abril, acompanhando a data de publicação mundial.

Os Filhos de Húrin, JRR Tolkien, Publicações Europa-América – P.V.P.: 22.30€

The Tolkien Society

JRR Tolkien na Wikipedia

Títulos de JRR Tolkien publicados em Portugal (pela Publicações Europa-América):

O Hobbit
A Irmandade do Anel
As Duas Torres
O Regresso do Rei
O Silmarillion
Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média
As Aventuras de Tom Bombadill
Os Filhos de Húrin

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Faleceu ontem, aos 84 anos, o norte-americano Kurt Vonnegut, um escritor de culto entre a contracultura dos anos 60 e 70, e uma figura que construiu a sua reputação com base em obras onde impera a sátira, o humor negro e a ficção científica.

As suas reflexões sobre a guerra e sociedade, a sua postura irónica e compassiva, a sua própria consciência de que era um homem atormentado pela violência e o absurdo trágico da 2ª Guerra Mundial, tornaram-no numa das vozes literárias mais influentes por obras como Cat’s Cradle, The Sirens of Titan, Mother Night, e sobretudo, Slaughterhouse Five.

O seu último livro, uma colectânea de textos escritos no jornal In These Times, sob o título A Man Without a Country (Um Homem Sem Pátria) foi publicado em Portugal, pela editora Tinta da China, em 2006. O texto que se segue, da minha autoria, foi originalmente publicado no site Filhos de Athena a 3 de Setembro de 2006, por ocasião dessa mesma publicação.

Kurt Vonnegut não é uma voz que deva ser levianamente considerada no mundo da literatura. Alguns manuscritos que saíram debaixo da sua pena são obras seminais que redefiniram o modo como perspectivamos história e sociedade.

Para muitos, é um escritor de ficção científica. E no entanto, transcende esse rótulo. Nesta colectânea de pequenos ensaios da autoria de Vonnegut, publicados ao longo dos anos no jornal In These Times, ele expõe precisamente essa questão em que foi discriminado como um escritor de ficção científica devido à sua formação e abordagem de certas temáticas. Mas se os seus livros dão lugar aos paradoxos e dilemas da ciência e tecnologia, é porque talvez ele sinta essa ser a forma mais indicada de expressar a angústia do seu tempo.

De origem alemã, formou-se na Universidade de Cornell em Química, mas a sua paixão por escrita levou-o desde cedo a desempenhar vários trabalhos como jornalista e repórter. Com o advento da II Guerra Mundial, alistou-se no exército americano, experiência essa que viria a ser determinante para a sua escrita futura. Sobreviveu milagrosamente como prisioneiro de guerra ao bombardeamento de Dresden pela aviação britânica e foi condecorado como herói pelo seu serviço durante a guerra.

Mas não foi capaz de esquecer as atrocidades que testemunhara, o grau de destruição das cidades, as pilhas de mortos que foi forçado a enterrar ou queimar, e porque não desejava que o horror do bombardeamento de Dresden fosse esquecido ou relegado para segundo plano, publicou em 1969 a sua obra mais famosa, Slaughterhouse Five or The Children’s Crusade: A Duty-Dance with Death (Matadouro Cinco ou a Cruzada das Crianças). Combinando elementos de ficção científica, como viagens no tempo, com uma análise social devastadora, despertou as consciências para a validade das justificações morais tomadas pelos Aliados durante a guerra.

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