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Archive for Novembro, 2006

LW

Qualquer crítico que escreva sobre livros sabe como é tarefa ingrata tentar expor o cerne de uma obra como Dune em poucas palavras. É tão vasta como as areias do deserto que descreve de forma tão singular. A arquitectura do mundo concebido anda de mãos dadas com uma multitude de perspectivas, cada uma delas sendo passível de dar lugar a uma torrente de debates e ensaios, divagações, análises e interrogações sobre os propósitos do autor, Frank Herbert.

Obra fundamental de ficção científica e que capturou a imaginação de milhares de leitores ao longo de quatro décadas, desde o ano da sua publicação, 1968, Dune inicia a odisseia de um homem destinado a assumir o papel de Messias, que traz a salvação com uma mão e as sementes da destruição e insatisfação com a outra.

Finalmente de novo acessível ao público português, a reedição em vários volumes pela Livros do Brasil, na colecção Argonauta, vem colmatar uma falta grave sentida desde há muitos anos pelos amantes de literatura fantástica, forçados a recorrer às edições na língua original.

A história de Dune abrange séculos e remonta aos tempos da Jihad Butleriana, a cruzada perpetrada pelos homens contra toda a tecnologia e inteligência artificial, forçando à criação de indivíduos e sociedades humanas que recorrem a vários métodos para desenvolver capacidades mentais, como os Mentat, as Bene Gesserit e os navegadores da Guilda Espacial. A casa Corrino governa de forma indisputável o universo, mas o seu poder é contrabalançado pela federação galáctica, o Landsraad, que garante o cumprimento de leis e convenções.

No momento em que a narrativa do livro se inicia, o leitor é confrontado com uma intriga à escala planetária onde assumem o principal protagonismo várias casas nobres, os Atreides e os seus rivais Harkonnen, a Guilda e a casa Imperial que possui uma força notável de soldados temida em todo o universo, os Sardaukar.

As primeiras páginas começam por relatar a presença da família Atreides no planeta Caladan e a iminente partida para o planeta Arrakis, conhecido como Dune, um local desértico, inóspito e agressivo. O poder galáctico representado na pessoa do Imperador Padishah, Shaddam IV, decretou a atribuição da regência do planeta à casa Atreides, mas os Harkonnen, inimigos com quem disputam um feudo antigo, planeiam secretamente uma conspiração que culminará na destruição da casa Atreides.

Dune é um planeta privilegiado no mapa geopolítico por possuir a Especiaria, uma droga capaz de induzir poderes prescientes nos navegadores da Guilda, permitindo-lhes realizar viagens interestelares e, assim, deter monopólio nas viagens do espaço. De facto, a premissa central de Dune consiste no facto de quem controlar a Especiaria controlar também, por consequência, o planeta.

A casa Atreides é atingida no centro nevrálgico de forma cruel e inesperada, e é forçada a enfrentar a perda do seu líder, morto por traição. Mas o filho, Paul, herdeiro legítimo do selo ducal Atreides, sobrevive, refugiando-se no deserto com a sua mãe, a concubina Lady Jessica. Paul, então um adolescente, é forçado a crescer, mas o seu crescimento implicará aceitar a superioridade genética do seu ser e a abertura de todas as portas da sua mente.

Apercebe-se de que é o resultado de séculos de manipulações genéticas realizadas pelas Bene Gesserit, cujo principal objectivo era o de criar o Kwisatz Haderach, o Bene Gesserit masculino que quebrará as leis do espaço e tempo, revelando a habilidade de prever todas as avenidas que conduzem ao futuro. Mas a experiência tão ansiada pelas Bene Gesserit escapou ao controlo e detém vontade própria.

O rapaz inicia uma nova fase de aprendizagem, habitando entre os Fremen, o povo nativo de Dune, que aprendeu a conviver em harmonia com a hostilidade do deserto e o consumo intensivo da Especiaria. Ele é a figura messiânica há muito aguardada, aquele que aponta o caminho, assumindo uma nova persona, Muad’Dib, que liderará o Fremen na destruição da governação tirânica dos Harkonnen.

Como uma tragédia da Antiguidade, as personagens são colocadas num cenário intemporal em que se torna impossível escapar ao destino. A figura de Paul Atreides é reminiscente dos profetas que se aventuraram no interior do deserto, em busca de uma voz interior que lhes indicaria o rumo certo a tomar, indo esse rumo frequentemente em direcção a uma morte trágica. E no entanto, as palavras e formas de pensar destes profetas moldam e transformam todos, para a eternidade.

Uma personagem profundamente atormentada pela sua condição, Paul é afligido por visões de um futuro onde o seu nome irá servir de estandarte em guerras santas desencadeadas pelos Fremen, levando a todos os cantos do universo violência e morte. Paul é, acima de tudo, um ser humano aprisionado no seu estatuto de salvador e destruidor, como Shiva e Vixnu, Cristo e Maomé. Torna-se impossível ludibriar o destino que lançou as suas garras e aprisionou a sua vida, devotando-a a uma ideologia que foge ao seu controlo.

Ele será o pilar da nova sociedade que se irá erguer, e a sua história não deixa de ser reminiscente da história do profeta Maomé e da ascensão das tribos do deserto que, com o tempo, se tornaram guerreiros implacáveis, paladinos da Islamização.

A cultura Fremen criada por Frank Herbert, de facto, bebe muito da cultura árabe e das tribos nómadas do deserto, mas é essa apenas uma porção de um universo ficcional infinitamente rico onde a ecologia, filosofia, misticismo e ficção científica são elementos que desencadeiam um jogo político e social denso, mas profundamente absorvente.

Agora é possível desfrutar, uma vez mais, em português. Todavia, as opções do tradutor nem sempre são as mais acertadas, e não se pode deixar de estranhar a opção da editora Livros do Brasil em publicar o primeiro livro às fatias na colecção clássica da Argonauta, quando seria mais razoável publicá-lo em um volume, talvez dois, na colecção Argonauta Gigante.

Ainda assim, aproveite-se de novo esta oportunidade para ler em português Dune, o livro em que se inicia a história extraordinária do planeta Arrakis, história essa que estaria incompleta sem a história do homem e profeta, guerreiro e santo, místico e filósofo, Paul Muad’Dib, que habitou entre as dunas do deserto e veio a aprender todos os seus segredos de forma tão profunda e marcante.

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