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Archive for Julho, 2006

Na passada sexta-feira, faleceu o escritor britânico de fantasia, David Gemmell, aos 57 anos, vítima do coração.

Nascido em Londres em 1948, e cedo expulso da escola, enveredou por vários trabalhos, desde jornalista e porteiro a escritor freelancer. Em 1984, publicou o romance que lhe granjearia grande sucesso, Legend, a história de uma fortaleza sob cerco, onde surge pela primeira vez uma das suas personagens mais amadas, Druss, que voltaria a reaparecer em várias sequelas.

Com Waylander (1986) estabeleceu-se definitivamente como um escritor best-seller no campo da fantasia épica e heróica. Desde então escreveu mais de 30 romances, sendo a sérier Drenai a mais aclamada da sua produção criativa, tornando-o um autor de grande reputação entre os amantes de high-fantasy (fantasia épica).

gemmell

Em Portugal, Gemmell conquistou imensos fãs com a publicação na colecção Via Láctea de Lobo Branco (White Wolf: A Novel of Druss the Legend), em que Gemmell apresenta um novo herói de grande plano, Skilgannon, o Maldito, que foi sucessivamente um temido e prestigiado guerreiro, profundamente ligado a duas figuras femininas por laços de amor e de paixão, depois monge, e por fim um homem solitário atormentado e dividido.

Em 2006, seguiu-se o lançamento da sequela, As Espadas da Noite e do Dia (The Swords of Night And Day), em que embora se tenham passado mil anos depois da morte de Skilgannon, o Maldito, este é de novo trazido à vida para derrotar uma tirana sanguinária, a Eterna.

Também um ocasional escritor no género da ficção histórica, em Setembro será lançado no mercado anglófono a sequela da sua série Troy que se iniciou com Lord of the Silver Bow e agora é continuada com Shield of Thunder.

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Tudo começou com um post no blogue do escritor galês Rhys Hughes. Nele, Rhys relembrava a invenção da autoria de Brian Aldiss, o género literário que ficou conhecido como as mini-sagas. A popularidade do género acabou por ocasionar um concurso de mini-sagas, nos anos 80, no jornal britânico Telegraph Sunday Magazine. Posteriormente, foram publicadas ao longo dos anos várias colectâneas editadas por Brian Aldiss sob o nome Mini-Sagas.

sagas

O esquema é muito simples. Uma história com princípio, meio e fim contada em exactamente cinquenta palavras. Sem o título incluído. Nas palavras do livro, Brevity is the soul of wit – and a mini-saga is the soul of brevity. A story of just fifty words, with a beginning, a middle and an end. Not just that, but a story that instantly captivates the reader with dreams and disasters, fantasies and fears, loves and hates, humour, morality, immorality, the everyday and the extraordinary. (Brevidade é a alma da sabedoria – e uma mini-saga é a alma da brevidade. Uma história de apenas cinquenta palavras, com um princípio, meio e fim. Não apenas isso, mas uma história que instantaneamente cativa o leitor com sonhos e desastres, fantasias e medos, amores e ódios, humor, moralidade, imoralidade, o quotidiano e o extraordinário).

Conversa puxa conversa, foi lançado o repto na lista de discussão da Yahoo dedicada a Ficção Científica portuguesa: um concurso de mini-sagas promovido por Luís Rodrigues cujo prémio consistiria num exemplar autografado de A Transformação de Martin Lake & Outras Histórias de Jeff Vandermeer. Os interessados teriam só cerca de três dias para provarem o que valem, até ao dia do lançamento do livro de Jeff Vandermeer a 24 de Julho.

Estabelecido o prazo, durante cerca de três dias a mailing-list foi recebendo um conjunto de mini-sagas, tanto do Brasil como Portugal. Humorísticos, sarcásticos ou irónicos, apocalípticos, viu-se um pouco de tudo. E ontem foi finalmente anunciado o vencedor, assim como várias menções honrosas. A Épica, atenta à qualidade de escrita dos participantes, ofereceu-se para publicar no site as mini-sagas premiadas. São elas cinco. Espero que gostem.

Mini-saga vencedora da autoria de Gabriel Boz

Gabriel Boz, natural do Brasil, tem-se distinguido por entre o fandom brasileiro pela sua actividade de escritor e divulgador de ficção científica. Participa, juntamente com outras colegas, na revista electrónica Desfolhar, onde assina uma coluna dedicada a literatura fantástica. A revista aceita submissões de contos e poesia e estão abertos a participações portuguesas.

Cocôboros

Ao visitar o Museu de História Natural, deparou-se com as fezes fossilizadas de um dinossauro. Decidiu que não gostava de museus. Só mostravam porcarias sem vida. Resolveu construir uma máquina no tempo. Ao visitar o Jurássico, acabou devorado por um Tiranossauro Rex. Hoje, está exposto no Museu de História Natural.


Menções Honrosas

Tiago Gama tem-se destacado pela sua actividade de editor, juntamente com Telmo Pinto, do fanzine Phantastes. O Tiago recentemente anunciou o lançamento do 2º número do fanzine que inclui participações de Deborah Valentine, Alberto Figueiredo, Telmo Marçal, João Ventura e Gavin Sodo, entre outros.

Que Vergonha

De repente, o edifício começou a abanar fortemente; daí até se encontrar soterrada pelos escombros não decorreu muito, esperando por ajuda que não chegaria. A sul, novo choque para a comunidade internacional: “ovelha escapa milagrosamente a rocket terrorista!”. Que bom ter cobertura internacional para mostrar o verdadeiro horror da guerra.


João Ventura é já um nome conhecido na ficção especulativa portuguesa. Autor de numerosos contos e mini-contos, recentemente internacionalizou-se com a publicação de um conto na Universe Pathways, a edição inglesa de uma magazine grega especializada em ficção científica, fantasia e horror. Os interessados em continuarem a desfrutar do trabalho de João Ventura, podem continuar a fazê-lo através do seu blogue.

Recebeu nada menos do que 3 menções honrosas.

Reflexão sobre a carestia da escrita

Precisava de umas palavras para acabar o conto. Fui ao mercado. O governo devia ter mão nisto! Tudo caríssimo! Substantivos, adjectivos… um roubo! E os verbos? Passados, presentes, vá lá, mas os futuros!!!
“Sabe, os futuros andam muito incertos”, justificou-se, profissional, o vendedor. “Embrulho?”
“Não, obrigado, é para escrever já.”

História trágico-cósmico-fronteiriça

Quando chegou ao fim do universo, o astronauta rejubilou: afinal era finito! Mas a natureza tem horror ao vazio; encostado ao universo havia outro. E o pessoal do SEF exigiu-lhe visto para entrar. Regressou, humilhado, e fez-se funcionário público. Carimbava os vistos aos turistas que queriam visitar o universo vizinho…

Entre a insustentável leveza e o irremediável peso das palavras, a
frustração do escritor perfeccionista

Escreveu com palavras leves. O conto escapou-lhe das mãos e subiu rapidamente no ar até se perder de vista. Recomeçou, usando palavras pesadas. O conto escorregou da folha de papel e afundou-se, irremediavelmente perdido. Quando, persistente, acabou o terceiro, com palavras de densidade apropriada, já o prazo tinha sido ultrapassado.

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No passado dia 18, foi apresentado na FNAC CHIADO o lançamento da edição portuguesa do romance de Alan Moore, A Voz do Fogo (Voice of the Fire).

Numa apresentação em que participou o autor David Soares, o tradutor desta obra, João Miguel Lameiras, crítico de BD, e o editor Luís Corte Real, a Saída de Emergência junta assim à sua colecção de literatura fantástica o nome de Alan Moore, uma fígura ímpar na ficção especulativa e já de proporções míticas no mundo da nona arte.

AlanMoore

O nome de Alan Moore tem sido constantemente trazido à ribalta nos últimos anos. É considerado o mais importante e influente argumentista de BD, conferindo a esta arte uma nova sensibilidade adulta e uma erudição pautada por excelência e rigor. As suas novelas gráficas são objecto de desejo das maiores indústrias cinematográficas, mas a sua personalidade e princípios artísticos têm muitas vezes chocado com a postura mais comercial de editoras e estúdios de Hollywood. A sua mais recente obra adaptada para cinema, V For Vendetta, trouxe-lhe vários dissabores e complicações jurídicas, financeiras e legais. No fim, optou por exigir que retirassem o seu nome dos créditos do filme.

Começou a sua carreira em finais dos anos 70 como cartonista e cedo foi-lhe oferecida a oportunidade de colaborar para o comic 2000 AD, um das mais importantes peças britânicas em comics a surgir naquele tempo e para o qual escreveu o aclamado The Ballad of Halo Jones. Não tardou muito para que através da Marvel UK, recriasse personagens como Marvelman e Captain Britain.

A sua colaboração com a magazine britânica Warrior é talvez o primeiro passo que Moore deu em direcção a uma completa ruptura com tudo o que já tinha sido feito antes sobre a temática dos super-heróis. Para além de Marvelman, foi nesse tempo que Moore se dedicou a V for Vendetta, a história de um anarquista mascarado que pretende destronar o governo britânico totalitário reinante.

O seu contributo para 2000 AD e a Marvel UK captou as atenções da indústria americana e a DC Comics ofereceu-lhe o trabalho The Saga of the Swamp Thing, um título que se revelara inicialmente um fracasso, mas que com o talento artístico de Moore, tornou-se uma das obras mais bem sucedidos da DC Comics, rejuvenescendo a banda desenhada no género de horror. É nesta fase que cria também a personagem de John Constantine que teve direito à sua própria série, Hellblazer. Muitas das suas histórias conferiram um novo fôlego a super-heróis banalizados pela indústria em geral, como Batman e Superman.

Mas está para além de quaisquer dúvidas que o trabalho mais importante de Alan Moore realizado para a DC Comics foi Watchmen. Quando Watchmen foi finalizado, tinha sido criado não apenas uma obra que descobriu novos territórios na nona arte, mas um monumento literário sem falhas. Em conjunto com a arte rigorosa e complexa de Dave Gibbons, Moore desenvolveu a história de um grupo de heróis mascarados em luta contra o crime que em nada se assemelham ao convencional grupo de heróis; têm neuroses, esgotamentos nervosos, falhas de carácter, os seus próprios princípios dúbios de justiça e liberdade. Carregada de simbolismo e de um forte comentário social e político, a novela gráfica foi a primeira a vencer um prémio Hugo e a primeira a dar entrada na lista da Time dos cem romances mais importantes do séc. XX. Encontra-se actualmente em vias de ser adaptada para o cinema, com realização de Zack Snyder.

Atingindo um ponto em que já tinha dito tudo o que havia a dizer sobre super-heróis, e também cansado das crescentes fricções com a DC Comics, começou um novo conjunto de trabalhos independentes, como From Hell, um relato ficcional, embora sugira uma pesquisa profunda e detalhada, sobre Jack, o Estripador. Posteriormente, criou a ABC (America’s Best Comics) que deu à estampa trabalhos como Promethea e A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, já com dois volumes publicados. O terceiro, The Black Dossier, é esperado para o Inverno de 2006. A ABC foi vendida à DC Comics, criando novos dissabores a Moore, relutante em trabalhar de novo para a editora. Nos últimos anos, constantes disputas pelo controlo das suas obras só têm aumentado a sua aversão pelas companhias mainstream.

O seu último trabalho, ainda nem posto à venda e já ladeado de imensa controvérsia, foi feito em parceria com a sua companheira Melinda Gebbie, Lost Girls. Pegando em três personagens femininas já conhecidas do público, Wendy de Peter Pan, Dorothy do Feiticeiro de Oz e Alice do País das Maravilhas, Moore descreve o encontro das personagens antes da I Grande Guerra, iniciando um relato sexualmente explícito em torno destas três mulheres. A novela gráfica irá ser apresentada pela editora Top Shelf este próximo fim de semana na Comic Con de San Diego, a maior convenção de banda desenhada (e não só) dos EUA.
AlanMoore

Um homem de inesgotável capacidade artística, os seus interesses não se limitaram à banda desenhada e aventurou-se também pelos campos da música e o romance.

A Voz do Fogo é precisamente o romance de estreia de Alan Moore, embora já tenha muitos créditos como argumentista de BD. Publicado em 1996 no Reino Unido, o livro conta, nas palavras de David Soares, a história e as vidas que fizeram a cidade de Northampton, local de nascimento e residência do autor; uma narrativa épica plasmada num intervalo de tempo que compreende seis milénios. Da pré-história ao século XX, A Voz do Fogo queima como só a Verdade pode fazer.

Para mais informações e acesso a uma entrevista de Alan Moore, consultem o blogue de David Soares, O Sonho de Newton.

Alan Moore Fan Site

Títulos de Alan Moore publicados em português:

Batman – Piada Mortal, Devir
Catálogo Argumentos de Alan Moore, Devir/Sodilivros
A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, vols. 1 e 2, Devir
A Voz do Fogo, Saída de Emergência

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A transformação de Martin Lake & outras histórias

A Livros de Areia Editores de Viana do Castelo prepara-se para apresentar ao público português a obra de Jeff VanderMeer, um dos mais prometedores talentos do novo fantástico anglófono, já várias vezes comparado ao génio de Jorge Luis Borges e de Italo Calvino. À semelhança do que aconteceu com Rhys Hughes em 2005, a Livros de Areia preparou A transformação de Martin Lake & outras histórias, numa edição autografada e limitada a 200 exemplares, de modo a despertar a atenção dos leitores para publicações futuras deste escritor.

O volume, com tradução e selecção da responsabilidade de Luís Rodrigues, inclui as noveletas “A transformação de Martin Lake” (texto galardoado com um World Fantasy Award em 2000), “Vida secreta” e “Três dias numa cidade fronteiriça” (que valeu ao autor uma nomeação para a antologia generalista Best American Short Stories), para além de uma introdução do crítico Allen B. Ruch apontando as influências de Jorge Luis Borges na obra de VanderMeer.

Jeff VanderMeer estará em Portugal para apresentar A transformação de Martin Lake & outras histórias e exibir a curta-metragem Shriek, com realização de JT Lindroos e banda sonora do grupo australiano The Church, a partir do seu mais recente romance, Shriek: An Afterword. A sessão de apresentação e autógrafos terá lugar dia 24 de Julho (2.ª feira) na Fnac Colombo pelas 21h30.

Por cortesia do autor, temos o prazer de reproduzir no nosso site um excerto de “Vida secreta”, cuja acção decorre num bloco de escritórios onde se confrontam os sonhos e obsessões dos indivíduos que aí trabalham, ao mesmo tempo que a monotonia do quotidiano é interrompida pelo surgimento de um intruso muito especial.

Vida secreta
Jeff VanderMeer

A caneta

Como terá ido ali parar, interrogou-se ele, enquanto a observava. A caneta na mão direita do responsável tinha estado, há não mais de uma hora, na sua secretária. Com aquela caneta—extinta, que já não se fabricava, com recargas importadas do estrangeiro—tinha assinado documentos importantes, escrito condolências, redigido memorandos. A caneta era um exoesqueleto negro de obsidiana, com um corpo fino e lustroso. Trazia estranhos símbolos gravados na superfície. A ponta deslizava sem esforço pela folha, como os seus dedos quando massajava as costas da mulher.

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