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Archive for Abril, 2006

Finalmente, os nossos visitantes poderão agora ver as fotografias do evento de Novembro passado, cedidas pela Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro. Poderão aceder à galeria através da página oficial do Fórum Fantástico. Um agradecimento especial à Raquel Garrido, a nossa webdesigner de serviço, desde o primeiro momento.

Em inícios de Abril saiu nas bancas mais uma crónica do evento, na revista Bang! n.º1, da autoria de Rogério Ribeiro.

O Fórum Fantástico 2006 ir-se-á realizar no mesmo local de 30 de Novembro a 3 de Dezembro deste ano. Já temos algumas novidades, mas só em breve obteremos várias confirmações e começaremos a revelar o nosso work in progress.

São todos bem vindos a contribuir com as vossas sugestões e recomendações do fantástico que se faz por cá ou no estrangeiro.

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Como foi aqui anunciado há alguns dias, o filme Mirrormask de Dave McKean foi exibido no Fórum Lisboa por ocasião do Festival de Cinema Independente. Não faltei a esta oportunidade no dia 24, onde ao longo de quase duas horas pudemos assistir, num auditório cheio, à exibição de Máscara de Espelho.
vendetta
Se o filme ganhou adesão nos festivais onde foi exibido e conseguiu a atenção do público terá sido em grande parte devido ao efeito Gaiman. O nome de Neil Gaiman já adquiriu nos últimos anos um efeito semelhante ao toque de Midas, transformando em ouro todos os projectos em que se vê envolvido. A notoriedade foi alcançada primeiramente no mundo da Banda Desenhada, através de Sandman, mas nos últimos anos a sua actividade de romancista permitiu-lhe um novo destaque, tornando-o um dos autores mais bem estabelecidos e reputados no meio e fora dele. Fantasias urbanas contemporâneas como American Gods, Neverwhere e Anansi Boys (brevemente publicado em português) combinam mitologia com elementos da realidade, construindo uma ficção que não se limita a contar histórias meramente pela arte do entretenimento, mas também como veículo de reflexão.

Mirrormask não é uma excepção à regra. A história envolve uma protagonista adolescente, Helena, filha de artistas de circo e que, ao contrário de muitas crianças, deseja apenas uma vida normal. Nas suas horas livres, demonstra talento para ilustração e nos seus desenhos constrói um mundo imaginativo. A relação conflituosa com a mãe e a vida de circo mostram-nos uma rapariga que passa o tempo em fantasias escapistas, e não é de estranhar então que os seus sonhos ir-lhe-ão abrir outras portas, a um mundo onde a palavra realidade não se aplica. Não fossem os sonhos um dos temas favoritos de Gaiman, proporcionando-lhe episódios férteis de criatividade.

Neste universo paralelo onírico, Helena aprende a verdade sobre as leis que regem esse mundo, ameaçado por uma rainha das trevas que procura por uma filha perdida, e que é na realidade o alter-ego da jovem, o seu Mr. Hyde. A filha da rainha das trevas deu uso a um encantamento, o mirrormask que lhe permitiu escapar para o mundo de Helena. Ambas trocam lugares e a pouco e pouco apercebemo-nos de que a rapariga se encontra enclausurada no próprio mundo ilustrado que criou e obtém vislumbres da outra Helena através de pequenas janelas. Para pôr fim à usurpação da princesa das trevas, a jovem terá que encontrar o encantamento Mirrormask.

Para um espectador familiarizado com o trabalho dos estúdios Henson, e especialmente para aqueles que passaram parte da sua infância ou adolescência a conviver com o show dos marretas, mas especialmente outros trabalhos como The Storyteller, Dark Crystal ou Labyrinth, filmes que saíram dos estúdios Jim Henson nos anos 80, e duas décadas depois adquiriram uma qualidade e um estatuto que os tornou bem amados e lembrados para todo o sempre, reconhece facilmente a marca Henson em Mirrormask nos cenários, na qualidade visual e etérea da fantasia, e nas próprias criaturas criadas que tão espantosamente ganham vida através da voz, dos gestos e expressões faciais.

Às vezes, aliando os efeitos especiais a uma realização competente assente numa história simples, consegue transcender-se essa simplicidade e obter um bom filme, mas este não é o caso.

Tenho sérias dúvidas de que Mirrormask consiga obter esse reconhecimento para a posteridade como esses trabalhos mais antigos que remontam aos anos 80. Esqueçamos o nome de Neil Gaiman nos créditos e temos nas mãos uma história bastante convencional e desinspirada que, nem por um momento, conseguiu incutir-me sense of wonder. Poderia ter sido uma história contada por um mestre contador de histórias, mas torna-se aborrecido no ecrã e nunca realmente apelativo. É um mundo de papel e cartão com uma personagem demasiado cliché, Valentine, um malabarista com uma interpretação e humor sofríveis, e todo o filme e a sua quest limitam-se a confirmar temas básicos e recorrentes na obra de Gaiman, nomeadamente, a identidade, o amor da família, mas principalmente, a passagem conturbada da adolescência para o mundo adulto, simbolizado na confrontação entre um mundo marginal e o mundo real. A criança terá que aceitar quem é e descobrir a suas próprias forças de forma a poder aceitar a realidade. É, no fundo, um teste.

Não importa o facto de ser um filme de baixo orçamento. Isso nunca foi um impeditivo para a realização de bons filmes, mas este é na realidade um filme medíocre e muito insatisfatório para um público cada vez mais exigente dentro do género, a nível de argumento. Teria feito talvez mais sentido nos anos 80, ao lado de obras como História Interminável, e mesmo este demonstra muito maior mérito, mas não agora, depois de termos visto, só para dar um exemplo, os soberbos filmes de animação de Miyazaki como A Viagem de Chihiro ou O Castelo Andante.

Esperava-se muito mais de Gaiman. Muito mais. Mas precisamente por causa da sua reputação, Mirrormask permanecerá na memória dos espectadores. O tempo julgará se será visto com uma opinião mais benéfica do que aquela que lhe atribuo hoje.

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Shadow of Tomorrow

Frederik Pohl (ed.)
Shadow of Tomorrow

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Para o final do mês de Abril, estão reservadas algumas boas surpresas para os cinéfilos de Lisboa. Dois festivais abrem as portas e são eles a III Edição do Indie Lisboa e o certame Fantasporto em Lisboa, uma selecção de alguns dos filmes que foram exibidos no último Fantasporto.

Indie

O Indie Lisboa vai de força em força e tem vindo a manter uma tradição de destaque ao melhor que se tem feito no cinema independente mundial. Este ano os interessados têm ao seu dispor uma vasta programação composta por 282 filmes e que decorre de 20 a 30 de Abril em locais como o Fórum Lisboa e os cinemas King e Londres, num total de seis salas de exibição.

Para além da secção de Competição Oficial de Longas e Curtas-Metragens que exibirá filmes nunca antes apresentados em Portugal, destaca-se o Observatório onde concorrem algumas obras que merecem a nossa atenção.

  • Mirrormask de Dave McKean, feito em colaboração com o argumentista e escritor Neil Gaiman conta a história de Helena, uma rapariga de quinze anos, que decide largar a sua vida no circo e ver o mundo “real”. Mas, quando dá por si, já embarcou numa estranha viagem às Dark Lands, habitada por gigantes, PássarosMacaco e perigosas esfinges. Para fugir das Dark Lands, Helena terá que alcançar a Mirrormask.

    20 Abril, 21h30, King 3 • 24 Abril, 18h30, Fórum Lisboa

  • The Wild Blue Yonder do grande cineasta alemão Werner Herzog parte da hipótese de um grupo de astronautas em missão espacial ser impedido de regressar à Terra. O planeta tornou-se inabitável (as razões não são explicadas) e a tripulação é obrigada a descobrir um local no espaço para aterrar. Entretanto, na Terra, um extraterrestre proveniente de um planeta que submergiu na água, revela estar a viver no nosso planeta há vários anos (a trabalhar ao serviço da CIA), e explica que descobrir um outro planeta habitável no espaço é uma missão talhada para o fracasso. Agora imaginem tudo isto ancorado em imagens dolorosamente belas.

    20 Abril, 21h00, Londres 2 • 23 Abril, 14h45, Londres 1

Bilhetes à venda a partir de 12 de Abril no Fórum Lisboa, no King e no Londres para sessões nos respectivos locais
Bilhetes: 3€ • Bilhetes com desconto: 2.50€

Mantendo a onda alternativa, mas seguindo uma direcção decididamente fantástica, seja ela horror, fantasia ou ficção científica, temos o Fantasporto em Lisboa, uma iniciativa em cooperação com a Inatel e o cinema Quarteto, que decorre de 21 a 29 de Abril.

O filme de vampiros sueco Frostbiten, e vencedor do Grande Prémio do Fantasporto 2006, foi escolhido como filme de abertura numa programação composta por onze filmes de várias origens a que podem aceder no site oficial.

Para além do vencedor, outras obras curiosas como Fausto 5.0, Hair High e A Quiet Love podem ser vistos no final deste mês. A dificuldade está na escolha.

Bilhetes à Venda no Cinema Quarteto a partir de 6 de Abril
Preços: 3€ / Associados: 2,5€ / Passe 9 bilhetes: 15€

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Remember, remember the 5th of November
Gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot.

Esta rima popular inglesa relembra um momento em que uma figura histórica inglesa, Guy Fawkes, membro de um grupo de católicos conspiradores, falhou na sua tentativa de bombardear o Parlamento, em 1605, e assassinar o rei Jaime I. As verdadeiras razões que originaram a conspiração ainda hoje permanecem largamente desconhecidas, mas o que é certo é que Fawkes foi capturado e executado por traição. O que não impediu que ganhasse estatuto de culto e que ainda fosse relembrado, quatrocentos anos depois, numa celebração anual a 5 de Novembro.

É com a história, um tanto ou quanto romantizada, deste conspirador que abre o filme V de Vingança ( V for Vendetta) do realizador James McTeigue, mas admitamos, um realizador fantoche nas mãos do talento criativo dos irmãos Wachoswki, autores do guião. E os irmãos Wachowski, para quem viveu em Marte nos últimos seis anos, são os mentores do fenómeno Matrix.

vendetta

O filme retrata a luta de um homem, Guy Fawkes ressuscitado, que oculta o rosto por detrás de uma máscara e assume-se como principal arquitecto de um plano que visa derrubar o governo fascista, detentor de absoluto poder numa Inglaterra futura e distópica. Auto-intitulado como V, torna-se a encarnação de um ideal de resistência e revolução que não hesita em recorrer a qualquer meio para fazer passar a sua mensagem e atingir os seus fins.

Na origem da personagem intrigante de V está o argumentista Alan Moore e o artista David Lloyd que deram à estampa pela primeira vez a odisseia deste homem de identidade desconhecida em 1982, na extinta magazine britânica Warrior. Seria o início de uma colaboração que culminou na colectânea de todas as séries impressas em formato graphic novel, sob os auspícios da DC Comics. As relações entre Alan Moore e a DC Comics são um assunto que faria correr muita tinta e discussão, e sobre o qual não me irei debruçar. A ruptura entre o argumentista e a companhia deveu-se a uma série de incompatibilidades que já vinham desde os anos 80 e atingiram a gota de água com o presente filme. Como consequência, a pedido de Alan Moore, o seu nome não é mencionado nos créditos. Para uma melhor compreensão dos problemas que deram origem a este facto lamentável, recomendo a leitura de uma entrevista recente de Alan Moore e que pode ser lida no seguinte site.

Alguma crítica cinematográfica portuguesa tem vindo a referir que esta decisão da parte do argumentista deveu-se essencialmente ao seu desagrado pela adaptação de V for Vendetta, quando na verdade era uma decisão inevitável, independentemente do filme ser uma obra-prima ou não. Aliás, havendo algum filme a culpar é, sem dúvida, a péssima adaptação de A Liga dos Cavalheiros Extraordinários.

V for Vendetta insere-se numa longa linha de literatura distópica que já se iniciara no séc. XIX, vindo a ganhar contornos bem definidos no séc. XX, com autores inovadores e que actualmente dispensam apresentações; Zamyatin, Huxley, Orwell. É de facto, num cenário tipicamente orwelliano, que se movem as personagens de Moore e Lloyd, e ao qual é prestada a devida homenagem através do actor John Hurt (que encarnou a personagem de Winston no filme 1984).

Nem sempre o traço de David Lloyd é preciso como deveria ser. Por vezes, não é fácil distinguir os rostos das personagens e a transição entre o enredo principal e as várias linhas secundárias da história, relacionadas com figuras de poder, também não o facilitam, mas, na verdade, a BD rompeu com os estereótipos de super-heróis e combatentes pela justiça, preocupando-se essencialmente em construir uma personagem que obriga o leitor a questionar os alicerces sociais e políticos, e a relação de quase demência estabelecida entre o indivíduo e o Estado que o governa, ou melhor, controla. Surgindo num contexto específico, o da governação Thatcher, Moore colocou em V as sementes do anarquismo, como ele deveria ser entendido na sua verdadeira definição, em contraponto a um estado totalitário que vigia, censura e silencia.

Mas para melhor compreender V, devemos olhá-lo à luz da sua relação com Evey Hammond, a rapariga que ele salva, numa noite, das garras da polícia. Uma relação estranha e ambígua muito melhor explorada na novela gráfica, ao passo que o filme limita-se a uma linearização que culmina no cliché do amor declarado na hora da morte. Banalidades destas aparte, dever-se-á considerar o filme à luz de outros momentos mais interessantes.

É sempre a relação entre V e Evey que constitui o centro vital e dinâmico da história, atingindo novas alturas na cena da tortura e interrogatório. V força Evey a descer ao abismo da sua alma, de forma a poder melhor compreender todo o medo e a prisão em que tinha sido enjaulada. E embora seja uma nova Evey , menos inocente e mais sabedora, a que se insurge, não deixa de confrontar V com a sua própria natureza monstruosa. Nem sempre apoia os seus actos, e muitas vezes condena-o pela sua natureza implacável e vingativa.

Não há uma definição fácil e estereotipada desta homem mascarado que tanto é considerado um terrorista, como um defensor da liberdade. Um produto monstruoso do próprio governo que pretende destruir, V torna-se essencialmente uma ideia, um símbolo político que repudia a ideia de controlo e censura e é o desencadeador do processo que visa cima de tudo anarquia, mas não caos. Anarchy means “without leaders”, not “without order”. This is not anarchy, Eve. This is chaos.

Perante uma tão forte mensagem política, os irmãos Wachowski mantém-se fiéis ao espírito das ideias da BD, embora estas sofram uma actualização para os nossos tempos. De facto, e nunca pensei vir a dizer isto, mas o enredo do filme chega a fortalecer alguns aspectos fracos da BD, em especial, a justificação que conduziu à ascensão do governo fascista no Reino Unido; a ideia de um ataque biológico orquestrado pelo próprio governo contra os seus cidadãos encaixa que nem uma luva na já complexa teia de acontecimentos. E pode-se afirmar que, embora as histórias secundárias tenham sido eliminadas a bem do ritmo narrativo, permanece fiel à BD, recriando momentos emblemáticos como a dança ao som da jukebox, a história da actriz Valérie, e até o desconcertante vestido de Evey no encontro com o bispo.

Uma outra personagem de destaque trata-se de Gordon (que só partilha com o Gordon da BD o nome) e no qual encontramos a problemática da censura nos media. Com a personalidade incontornável do actor britânico Stephen Fry, Gordon tornou-se o homem do espectáculo forçado a submeter-se às regras do Partido. Mas a sua admiração pela arte e cultura obrigam-no também, à semelhança de V, assumir uma máscara e ocultar a sua persona. Não sem que antes decida realizar a sua própria vingança contra o Chanceler Adam Sutler e elaborar uma sátira pela qual acabará por pagar um preço elevado.

As cenas finais são talvez as que produzem um maior aturdimento no público , em especial a cena do dominó, enquanto Finch está sentado na esquadra a relatar as últimas notícias de caos e violência que começam a germinar na sociedade, por intervenção de V. Mas para um filme interessado em passar uma mensagem claramente revolucionária, não teria sido sensato manter bem definidas as fronteiras entre caos e anarquia? Quem vê o filme não julgará que basta o caos para derrubar um regime fascista, o bombardeamento de uns edifícios simbólicos para se iniciar uma nova era de paz e fraternidade? É nessa direcção que se revelam as maiores falhas de V for Vendetta e o tornam um produto inferior à grande linha de cinema distópico. Existe uma revolução, mas não existe uma reflexão sobre as consequências dessa revolução, apenas uma visão naïve de que os fachos devem ser eliminados, de modo a permitir que a liberdade prevaleça.

A graphic novel poderia já não ser a subtileza em pessoa, mas havia uma abordagem mais honesta e menos maniqueísta à questão, colocada em termos demasiado lineares no filme. E no fim de tudo isto sobra um filme com uma realização de pouco brilho, com alguma cinematografia desinspirada (basta ver a cena de forte carga simbólica em que é rapada a cabeça a Natalie Portman, totalmente desperdiçada), mas um argumento que deixa o espectador com muito para pensar e tavez seja adequado o momento em que chega, um momento em que a conjuntura política actual não dá azo a grandes optimismos.

Na interpretação, a voz de Hugo Weaving é teatral o suficiente para dar corpo à máscara. Natalie Portman bem tenta, mas ainda lhe falta alguma maturidade para um papel deste género. Samantha Morton teria sido uma escolha bem mais adequada para Evey, mas faltará a esta actriz o grau certo de estrelato. De um elenco secundário competente, sobressai John Hurt com a sua eloquência dominada pelo fervor e exaltação nacionalistas.

Em termos artísticos é que, infelizmente, V fica uns quantos furos abaixo da fasquia.
E convenhamos, não acrescenta nada de novo ao que já tinha vindo a ser escrito e feito anteriormente, com muito maior brilhantismo. Mas será talvez a obra que tenha capturado, com maior impacto, uma mistura de bom entretenimento com assuntos que exigem uma maior consciência e reflexão da parte do público.

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