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Archive for Abril, 2005

África Minha

Em anos recentes, o fantástico literário português tem vindo a assimilar, na sua maioria, muitos dos padrões anglo-saxónicos que regem e influenciam, sem contestação, o género.

Todavia, a literatura de língua portuguesa tem dado mostras de vitalidade e frescura noutras áreas geográficas perfeitamente distintas em que a oferta literária tem vindo a reconstruir e questionar um passado cultural diverso e feito de múltiplos estratos, entre eles o da magia e encantamentos, de espíritos e lendas de curandeiros. A escritora moçambicana, Paulina Chiziane, nesse sentido, tem empreendido uma notável carreira de romancista, do qual se destaca o seu romance, O Sétimo Juramento, publicado no ano 2000, pela editora Caminho.

Chiziane

Discutir a história de Moçambique implica referir o seu passado e herança colonial, e implica, de certa forma, procurar entender as convulsões que atravessaram todo a sua história de contrastes e contradições.


Paulina Chiziane, em O Sétimo Juramento, suspende o cenário da guerra civil, abordado em livros anteriores, e procura, antes de mais, problematizar a cultura popular moçambicana, o conhecimento antigo e religioso em oposição à nova cultura urbana, fruto do passado colonial. Oferece o retrato de um espaço onde se ergue dos escombros a burguesia e ascende um novo poder capitalista, sem escrúpulos para com as classes desfavorecidas.

Numa linguagem poética e fluída, trabalhada e consciente, a autora descreve a vida de uma família da classe média/alta que se enquadra, aparentemente, nos cânones tradicionais; David e Vera, um casal abastado, dois filhos, símbolo de uma vida normal, afastada da pobreza e desiguldades, igualmente afastada da tradição moçambicana, presente apenas nas memórias de uma avó.

Desde o princípio que é admitida a corrupção de David, dirigente de uma fábrica e a braços com uma revolta e protestos dos operários por melhores condições. Perante o desmoronar do seu mundo de conforto e prosperidade, David envereda por um caminho obscuro que o conduz ao reavivar das suas raizes culturais, ao desbravar de séculos de tradição onde impera a sabedoria religiosa animista, onde todas as coisas são dotadas de vida. Sabedoria que invoca os espíritos vigilantes, lançando as almas humanas ao abismo.

Abismo que, efectivamente, rodeia constantemente os passos de David, levando-o a ceder à magia negra. Se por um lado encontramos a prática religiosa católica, consequência da colonização portuguesa, por outro, nunca deixaram de estar presentes antigas práticas religiosas, que sucessivos governos do país tentaram proibir e apagar da memória.

Ainda que o percurso espiritual de David conduza os seus passos da luz para a escuridão – A magia negra é o único caminho que me resta – a sua família revolta-se contra a sua entrega ao mal e ao mundo das trevas.

Vera, sua mulher, e Clemente, seu filho, assistem impotentes ao ruir das convenções, da tradição e moral, do espírito do pai de família, cada vez mais atormentado e enlouquecido pelo seu poder visceral e primitivo, herança da noite primordial africana.

De facto, para uma melhor compreensão do romance de Chiziane torna-se vital compreender a própria cultura africana e a forma como os curandeiros e feiticeiros ocupam um lugar de destaque na sociedade. Tanto o curandeiro ou Wulumo, Sumam, Nyamussoro, diferentes nomes que assume consoante os grupos étnicos, representa o bem, a luz, o mundo da estabilidade, em oposição ao Feiticeiro, ou Kuino, Tyarkaw, Bayifo, que opera sobretudo de noite e manifesta-se muitas vezes através de metamorfoses, sendo comum a prática de possessão de espíritos. Como em inúmeras das obras de fantasia, também aqui não poderia deixar de estar presente a luta titânica entre o bem e o mal; bem personificado na figura de Clemente,filho de David, dotado de poderes de curandeiro.
Face ao quebrar de todos os laços familiares e do mundo que conhecera, resta apenas à figura feminina do romance, Vera, sobreviver e preservar a sanidade a todo o custo, ainda assim, a sua própria fragilidade de mulher acaba por inspirar força e um sopro de esperança por toda a história.

Muito mais do que uma luta entre bem e mal, as páginas de O Sétimo Juramento descrevem-nos o antagonismo entre pai e filho, entre uma tradição ancestral e a da modernidade construída com os novos costumes herdados dos colonizadores. Com a diferença de que Clemente não procura rejeitar a tradição, antes restaurá-la do seu passado obscuro e conferir-lhe a dignidade que merece. Ser Nyamussoro com orgulho e dignidade, em comunhão com o mundo moderno.
O fantástico aqui, mais do que assumir uma face de entretenimento ou mito, é assumido como tradição de um povo. Desta forma, Chizane consegue a proeza notável de reflectir, em cada página, a alma contraditória e marcada por contrastes de Moçambique.


No imaginário do povo moçambicano continuam presentes todas as velhas lendas e histórias, espólio de cada grupo étnico que, com a passagem do tempo, acabaram por estabelecer as raizes do fantástico da África Negra.

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– Ésquilo atribuiu-me o que pareces considerar como mais um dos meus crimes. Mas sabes bem que nunca minto. Roubei o fogo do Céu e dei-o aos homens. Nunca te escondi que o fizera. Mas o alfabeto, se não foi outro deus, então foi a própria dinâmica da humanidade…

Zeus olha-o com severidade :

– Escuta bem. Não voltarás ao mais alto cimo do Cáucaso. Não serás mais acorrentado. Sob uma condição.

– Que condição ? – pergunta Prometeu, dividido entre a esperança e o temor.

– Quero saber ler. Ensina-me a ler. Ensina-me o segredo da leitura. Porque eu sei que há um segredo.”

JOSÉ MORAIS e RÉGINE KOLINSKY são, respectivamente, Professor na Universidade Livre de Bruxelas e Investigadora permanente da Fundação belga da Investigação Científica. Têm publicado inúmeros trabalhos sobre a literacia e a aprendizagem da leitura. Ele é membro do Comité Científico do Observatório Nacional da Leitura em França e co-autor de um relatório sobre a alfabetização apresentado na Câmara dos Deputados brasileira. Ela dirige um projecto de investigação sobre linguagem, literacia e música.

Retirados durante um ano sabático na ilha de Santa Catarina, brasileira mas de raízes açorianas, imaginaram o encontro de Zeus, divindade iletrada, e de Xangô, alfabetizado pelos missionários portugueses, e em torno dele construíram a intriga de uma fantasia científica sobre a aprendizagem da leitura. Um exemplo de ciência alegre. Na leitura deste livro cruzam-se a ânsia de Zeus por saber ler e o prazer do próprio leitor.

Para quase todos: jovens, pais, professores…, até padres, ministros e, porque não, deuses?

Gradiva, ISBN: 9896160317, pvp: 11 euros.

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Termina agora o segundo livro (The Neutronium Alchemist, 1997) da trilogia escrita por Peter F. Hamilton, uma das mais representativas da renascida Space Opera. Apesar da sua importância dentro do género, não deixa de se notar a opção questionável de transformar um único livro em quatro volumes. Sinal dos tempos, que nos Estados Unidos estão a levar muitas editoras a transformar títulos únicos em dois volumes, contra a opinião tanto de autores como de leitores?

Sinopse: No final do volume anterior, Erick Thakrar suplica aos membros de uma nave edenista que o mantenham em tau-zero, porque não acredita que haja outra forma de escapar aos possuídos. E agora, tendo como pano de fundo o facto de estes últimos estarem a espalhar-se como uma epidemia, todas as agências de segurança da galáxia se lançam numa corrida contra o tempo, para tentarem localizar e deter a Dra. Alkad Mzu, impedindo-a de usar o Alquimista. Assim se conclui a publicação de O Alquimista de Neutrónio (vols. 19, 20, 21 e 22), a segunda parte da célebre trilogia de Peter F. Hamilton, Ao Cair da Noite, cuja parte inicial foi já lançada nesta mesma colecção, com o título A Disfunção da Realidade (vols. 8, 9, 10 e 11). Peter F. Hamilton pertence a uma nova geração de escritores que ousaram misturar o universo da ficção científica com elementos narrativos provenientes da literatura fantástica e de terror. Há por isso quem diga que esta sua obra funciona como se tivesse sido escrita por um Robert Heinlein, revisto ou revisitado por Stephen King.

Editora Livros do Brasil, Colecção Argonauta Gigante (nº22), ISBN: 9723827131, pvp: 16 euros

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Nasceu uma nova escritora portuguesa do fantástico épico. Sandra Carvalho, natural de Sesimbra, acaba de publicar o primeiro livro – A Última Feiticeira – sob chancela da colecção Via Láctea da Editorial Presença.

Sandra Carvalho

Em A Saga das Pedras Mágicas os heróis, diz-nos Sandra Carvalho, têm uma profunda ligação à Natureza e aos Elementos, são apaixonados pela Vida e inteiramente determinados na sua coragem. A acção passa-se num tempo em que os sábios Druidas se recolhiam nas florestas para perpetuarem o Conhecimento que em eras passadas lhes fora transmitido pelos Seres Mágicos. O berço da heroína desta história, Catelyn, e dos seus cinco irmãos varões, situa-se na Grande Ilha, cada vez mais fustigada pelos ataques dos Viquingues. Os senhores locais formaram uma Aliança para os repelirem, consolidando essa política através de casamentos combinados entre os herdeiros das grandes famílias.

Sandra Carvalho junta-se, deste modo, a Filipe Faria como representantes portugueses da fantasia épica na colecção Via Láctea, uma aposta bem sucedida da Editorial Presença e que tem vindo a contribuir, tanto com esta colecção como a de Viajantes no Tempo, para a divulgação de novos autores no género.

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Apontada como uma das fraquezas da FC Portuguesa, a falta de diálogo com o que se faz lá fora acaba por ser uma estrada de dois sentidos. Assim, é muito raro encontrarem-se alusões a Portugal em obras de referência do género.

Possível sinal de mudança (ou apenas resultado da visita de Stableford a Portugal em 1998) é a entrada sobre “Portuguese Science Fiction” no recente Historical Dictionary of Science Fiction Literature (2004) de Brian Stableford:

“Portuguese fantastic literature made little use of sf motifs until U.S. imports provided models in the wake of World War II, although Melo de Matos has published a vision of Lisboa no Ano 2000 (Lisbon in the Year 2000) in 1906. Such remnants were gathered together into a patchwork history in the magazine Omnia (1988-1991) by Alvaro de Sousa Holstein and José Manuel Morais, who published a definitive Bibliografia da Ficção Científica e Fantasia Portuguesa (1993). New writers promoted in the magazine included João Barreiros and Daniel Tércio, both of whom were represented, along with Luis Filipe Silva – Barreiros’s collaborator on the epic novel Terrarium (1996) – António de Macedo and Maria de Menezes, in Non-Events on the Edge of the Empire (1996), the first of three bilingual anthologies published in association with “Encounters” held in Cascais from 1996-2001. Simetria, the Portuguese Science Fiction and Fantasy Association, organized the later ones. The other anthologies in the series are Side-Effects (1997) and Frontiers (1998); the latter features a succint history of “SF in Portugal” by Teresa Sousa de Almeida.” fonte

O artigo de Teresa Sousa de Almeida pode também ser encontrado, em inglês, aqui.

Scarecrow Press, ISBN: 0810849380, pvp: 70 dólares.

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The Fourth Circle

Zoran Zivkovic

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Muitas vezes a Ficção Científica (FC) Portuguesa comporta-se como aqueles parasitas que, nos filmes de terror, invadem o corpo da vítima: navega silenciosamente sob a pele, denunciando-se de quando em vez ao viajar muito perto da epiderme. Ao vermos esses montículos ambulantes, ficamos sempre numa tensa expectativa de que mergulhem de novo ou que irrompam finalmente do desgraçado hospedeiro.
Por coincidência, surgiram esta semana duas novidades no plácido panorama da FC Portuguesa que nos fazem desejar que o “bicho” irrompa finalmente, mesmo que entre tripas e sangue.

Em 1996, os autores João Barreiros e Luís Filipe Silva publicaram o romance que, até hoje, é considerado o marco maior da FC Portuguesa: Terrarium, Um Romance em Mosaicos. Foi uma altura em que a colecção de FC da Editoral Caminho constituia um incentivo para tanto para autores portugueses como brasileiros. Depois disso, Filipe Silva não voltou a publicar e Barreiros teve de esperar por 2004 para ver o lançamento de um novo livro seu (A Verdadeira Invasão dos Marcianos, pela mão da Editorial Presença). Talvez seja precisamente o facto de haver de novo uma colecção de FC em Portugal a apostar em talentos nacionais que tenha devolvido algum bicho-carpinteiro aos autores.

Dez anos passados sobre a concepção da obra, João Barreiros e Luis Filipe Silva decidiram apostar de novo em Terrarium, procurando “uma voz jovem”. Terrarium Redux é o título (provisório, mas que devia ser definitivo!) do blog onde os autores se propõe propocionar-nos um vislumbre do processo de recuperação e adaptação do romance. Uma oportunidade a não perder!

Sinopse: Como teriam obtido aquele exemplar? Uma revista absolutamente nova, num tempo em que tais objectos se haviam tornado em peças de ouro vendidas aos mais altos preços, relíquias pelas quais se matava e morria como nos velhos tempos. Haveria algum armazém numa das naves, a que os prometeus teriam acesso? Um compartimento secreto onde alguém entesourara uma colecção inteira?

Editorial Caminho, ISBN: 9722110624, pvp: 22 euros.

Editado por Jorge Candeias, o e-zine E-nigma voltou ao activo, após uma ausência de sete meses. Desde há alguns anos o principal repositório de contos, artigos e críticas da FC lusófona, o site marcou o retorno à actividade com a adição de uma crítica por Luís Rodrigues sobre Toast and Other Rusted Futures de Charles Stross.

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As Bruxas de Salem

Um grupo de raparigas que se dizia estarem enfeitiçadas tinha a capacidade de identificar como “Bruxa” qualquer pessoa…

Os trágicos acontecimentos ocorridos em Salém no final do século XVII foram a inspiração de As Bruxas de Salem, peça escrita por Arthur Miller em 1955. Esta obra é tida como uma metáfora à “caça às bruxas” que o próprio Arthur Miller sofreu no periodo mccarthista. A histeria colectiva, retratada na peça, assenta no medo e num pensar dicotómico da realidade: O Bem e o Mal; Deus e o Demónio; Alinhados e Desalinhados; o Ocidente e o Resto do Mundo… A identificação do Mal dá ao Homem a “certeza” de fazer parte do Bem… e o Drama (re)começa…

Peça levada a cena nos dias 21, 22, 23, 26, 28 e 29 de Abril, pelo Grupo de Teatro Miguel Torga, no Anfiteatro 1 da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa. Para mais informações, consultar o site do Grupo.

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Lions of Al-Rassan

Guy Gavriel Kay

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Ruled Brittania

Harry Turtledove

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