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Archive for Fevereiro, 2005

Em Lullaby – Canção de Embalar (Lullaby, 2002), Chuck Palahniuk, autor de Fight Club, conta a história de Carl Streator, um viúvo solitário, repórter jornalístico quarentão que é enviado para fazer uma série de artigos sobre o Síndroma de Morte Súbita Infantil. No decurso da investigação, descobre uma sequência sinistra: a presença nos locais dessas mortes da antologia “Poemas e Rimas à volta do Mundo”, todos os exemplares abertos numa página onde surge um canto africano – uma canção de embalar. Essa canção revela-se letal quando falada ou mesmo pensada na direcção de alguém e quando se aloja no cérebro de Streator, ele transforma-se num serial killer involuntário. Junta-se então a uma agente imobiliária, Helen Hoover Boyle, especializada na venda de casas assombradas e que perdera uma criança há vários anos por acção da canção. O seu objectivo é eliminar todas as cópias do livro, impedindo que esse letal vírus verbal se espalhe e extermine a Humanidade. Acompanhado-os na viagem estão a assistente de Helen, Mona Sabbat, uma Wiccan extremamente zelosa, e o seu cínico namorado eco-terrorista, Oyster.

Editorial Notícias, ISBN: 9724615340, pvp: 17,00 euros.

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Lançado em 2004, e eleito o melhor livro do ano pela Time, Jonathan Strange & Mr. Norrell, causou grande sensação entre os admiradores e leitores de fantasia. A autora, Susanna Clarke, é já considerada uma das maiores revelações dos últimos anos.

Segue-se uma crítica ao livro. Não contém spoilers, mas também não se deixaram de fazer referências, superficiais note-se, a certos eventos da história.


É sabido como o género do romance ganhou nova vida e consistência durante a época vitoriana, muito graças a romancistas pioneiras numa nova estética literária como Jane Austen, as irmãs Brönte e George Eliot. E é sabido como o séc. XIX foi fértil em autores de romances que souberam espelhar um retrato incisivo da civilização.

O que não é sabido é como uma autora britânica conseguiu aliar a descrição dessa sociedade tão romantizada e satirizada nos livros, ao mundo dos faeries. Para Clarke, é na verdade, uma sociedade que já assistiu à ascensão da magia, mas agora resignou-se à sua perda. Já não existem mais mágicos em Inglaterra. As portas entre os mundos que antigamente eram visíveis aos olhos dos humanos, desapareceram por entre a natureza selvagem. O reino independente do Norte de Inglaterra deixou de ser governado pelo seu rei mágico, há muitos séculos desaparecido.

Até que no ano de 1807, Mr. Norrell faz a sua primeira aparição em Londres, determinado a restaurar a prática da magia na Inglaterra e seguir a tradição dos grandes mestres áureos. Ou pelo menos, os mestres que mais convém às suas ideias do que deveria ser a nova magia inglesa.

Assim dá-se início a uma das mais originais e vivazes obras de fantasia que surgiram nos últimos anos – Jonathan Strange & Mr. Norrell de Susanna Clarke. Facto mais notável ainda por ser o primeiro romance da autora.

O estilo de Clarke tem sido muitas vezes comparado nas críticas ao estilo pessoal de Jane Austen, aliado ao tom irónico de Dickens. Porventura, haverá um certo exagero nesta comparação; enquanto que a ironia de Dickens era marcada por um certo pathos e uma negritude a servir de pano de fundo, Clarke permeia a sua história com um tom decididamente irónico, mas light. Até mesmo Austen, por trás de todos aqueles enredos amorosos psicológicos, não era livre de uma certa frustração e raiva pela condição da mulher na sua época.

Exceptuando na III e última parte do livro, em mais de dois terços da obra de Clarke, sentimos o profundo divertimento da autora em retratar os gentleman ingleses no meio da sua incredulidade e curiosidade primeiro, admiração e espanto depois, pelo regresso da magia.

Já mencionei uma das personagens que deu origem ao título, Mr. Norrell, falta mencionar a personagem que a meu ver conseguiu inspirar a narrativa com maior frescura, intensidade e uma boa dose de imprevisibilidade – Jonathan Strange. O que em Norrell é antiquado e conservador, em Strange é impulsivo e ousado. Ao passo que no primeiro observamos uma recusa de novas experiências, o segundo é todo ele aceitação.

Tomando uma decisão algo leviana em ser mágico (talvez demasiado leviana até), Strange torna-se pupilo de Norrell, dando ocasião a momentos tanto hilariantes como tensos. O que é certo é que ambos se vêem, de súbito, no centro de um turbilhão político e social, que existe em paralelo com certas manifestações faeries que lentamente ganham protagonismo no enredo…

A guerra contra Napoleão, que ocupa ainda um número considerável de capítulos, será talvez o calcanhar de Aquiles da autora. É legítima e ousada a sua opção em pegar em figuras históricas como o Duque de Wellington e inseri-las no seu mundo ficcional, subvertendo os acontecimentos reais e adaptando-as ao seu mundo mágico.

E em várias entrevistas, Clarke nunca deixa de vincar as suas tentativas de conferir verosimilhança à história, de fazer a magia parecer real, ao nível da magia no quinteto Earthsea de Ursula Le Guin. Nesse sentido, nem sempre é bem conseguida a tentativa da autora; a descrição excessiva das campanhas de Wellington na Península Ibérica, afectadas por magia, esforça demasiado os limites de crença do leitor. A autora está a pedir-nos para acreditar na sua visão, interessante se bem que desnecessariamente alongada, da guerra napoleónica no Continente, mas pede por uma suspensão de descrença que não se processa inteiramente na mente do leitor. E daí que acabe por se perder um pouco nos excessivos detalhes do conflito, deixando para segundo plano o que realmente interessa: o frágil equilíbrio entre o mundo etéreo e o mundo inglês, prestes a despedaçar-se.

Entra-se na III parte do volume, a meu ver, a mais assombrosa e que revela o talento inegável de Susanna Clarke.

É a parte mística, a que liberta forças obscuras que jogam com os destinos dos humanos e os manipulam para servir propósitos só deles conhecidos, é a parte da loucura encenada e verdadeira no meio de uma Veneza misteriosa e fascinante, a parte do amor irrecuperável e desgosto que advém dessa perda.

Os dois gentleman mágicos serão submetidos a provas de fogo, já há muito profetizadas, mas serão Strange e Norrell a manipularem realmente os acontecimentos? Ou apenas peças de um tabuleiro muito mais vasto? Será caso para dizer que existe uma personagem principal ausente, mas sempre presente? Perguntas a que a autora responde de forma enigmática, sem revelar o jogo inteiro.

Uma das curiosidades da obra trata-se das infinitas notas de rodapé onde são contadas histórias e reveladas biografias dos grandes mestres da História da Magia Inglesa. À semelhança do que encontramos nos apêndices de Lord of the rings de JRR Tolkien, em que a mitologia e história da Terra Média são descritas em breves resumos, Susanna Clarke utiliza os rodapés para esse mesmo efeito. A riqueza dos pormenores acaba por arquitectar um todo impressionante e um mundo paralelo consistente que cativa com as suas estranhas proezas de séculos passados.

Uma obra riquíssima povoada de humor e ironia, e de todos os sentimentos que nos fazem partilhar a vida das personagens no meio dos seus receios e ambições, indignações e encanto. E é esta a real prova da superioridade da odisseia de Norrell e Strange, o facto de conseguir tão bem envolver o leitor num ambiente fantástico e exprimir de forma inteligente e elegante a introdução da magia na Inglaterra.

Também se têm invocado semelhanças com Harry Potter, algo totalmente infundado. O que se pode dizer é que tanto Rowling como Clarke se dedicam à criação de uma alternativa, uma sociedade em que a magia está presente. E acabam aqui as semelhanças.


Para mais informação sobre esta obra, recomenda-se o site oficial www.jonathanstrange.com que encerra alguns extras, incluindo um conto e o jornal The RavenThe official paper of record to Jonathan Strange & Mr. Norrell.

Sabe-se que a Editorial Notícias comprou os direitos de autor do livro, mas não existem informações disponíveis sobre para quando está prevista a publicação em português.

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Fantasporto 2005

Fantasporto 2005

Inicia-se hoje a 25.ª edição do Fantasporto, festival de cinema fantástico de referência no universo português e internacional, até 7 de março. Sem convidados “sonantes”, o cartaz é contudo bastante rico, e como em anos anteriores tenta alargar o âmbito do festival.

As secções oficiais incluem:

  • Cinema Fantástico
    Destaque para “Nothing”, de Vincenzo Natali, realizador de “Cubo” e de “Cypher”; “Saw” de James Wan, promete a mais básica das premissas no cinema de terror, o medo; “Primer”, de Shane Carruth, filme de ficção cientifica em que quatro cientistas desenvolvem algo cujas consequências não sabem de todo avaliar, por desconhecerem ao certo do que se trata.
  • Orient Express
    Faz-se uma retrospectiva de alguns dos realizadores orientais mais importante das ultimas décadas, nomeadamente Shinia Tsukamoto com “Tetsuo II: Body Hammer” e Hideo Nakata com “Ring” e “Dark Water”, entre outros.
  • Semana dos Realizadores
    Dedicada ao chamado cinema de autor, conta com realizadores desde a vizinha Espanha até à Nova Zelândia.
  • Méliès D’Argent
    Passa também pelo porto uma das eliminatórias do prémio Méliès D’Argent, destinado a premiar o Melhor Filme de Cinema Fantástico Europeu.
  • Anima-te
    Nova secção dedicada exclusivamente ao cinema de animação, dentre os quais podemos destacar “Appleseed” de Shinji Aramaki, e o “Ghost in the Shell – Stand Alone Complex” de Kenji Kamiyama
  • Panorama Cinema Português
  • Porto em Curtas
    Segundo excerto do próprio site do Fantas: “O “Porto em Curtas” é uma das novas secções do Fantasporto que engloba todas as curtas-metragens que espelhem o “conceito fantas” – bom cinema, qualidade e entretenimento – e não só as de temática fantástica. Uma continuada tentativa de dignificação merecida de um formato cinematográfico tão mal tratado em Portugal e no Mundo.”

Para uma lista de todos os filmes em exibição, consulte o Programa Oficial do Fantasporto 2005. Os bilhetes para o cinema Rivoli custam 3,5€ e podem ser adquiridos desde o dia anterior.

Para informações mais detalhadas sobre o Fantas deste ano, recomendo o especial do site da Antestreia, que considero melhor organizado que o site do próprio Fantasporto.

De salientar ainda outra novidade deste ano, o Fantasound, conjunto de concertos que prometem animar todos os que por uma noite quiserem uma alternativa ao cinema. Destaco por exemplo os Mesa, no dia 1 de Março, uma das mais promissoras revelações da musica pop portuguesa dos ultimos tempos. Os bilhetes custam de 15 a 20 €, e os concertos realizam-se no Teatro Sá da Bandeira, sempre pelas 21h30.

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Espíritos, trols, sereias, elfos, ogres, gigantes, duendes e estranhas criaturas que vivem entre o frio eterno e as florestas escuras, retratadas neste clássico da literatura escandinava como num jogo de reflexos, onde a realidade se confunde com o fantástico.

Jonas Lie é considerado um dos “quatro grandes nomes da literatura norueguesa ao lado de nomes como Bjørnson, Ibsen ou Kieland. Tendo passado a sua infância no Norte da Noruega, as lides do mar, as tempestades, os mercadores russos, lapões e finlandeses, o seu folclore e mitologia inspiraram a imaginação do jovem Lie.
Dedicou-se a tempo inteiro à escrita publicando diversas novelas e romances, com um estilo inovador e impressionista, sobre a vida dos pescadores e mercadores que conhecera na sua juventude. Abordou igualmente assuntos polémicos como a condição feminina ou as duras condições de trabalho das classes mais pobres.

Editora Cavalo de Ferro, ISBN: 9728791739, pvp: 12,20 euros

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Fanzine Hyperdrive nº4

Acaba de ser anunciado para breve o lançamento do nº4 do fanzine português Hyperdrivezine.

Editado por Ricardo Loureiro, o Hyperdrivezine comemora nesta edição o seu primeiro aniversário. O “menú” da festividade é constituído por contos do americano Timons Esaias, dos brasileiros Wilton Pacheco e Miguel Carqueija e da portuguesa Regina Silva.

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A Guerra da Evolução

A colecção Viajantes no Tempo da Editorial Presença acaba de publicar A Guerra da Evolução ( Cowl )do autor britânico Neal Asher.

Destaque para a tradução realizada por João Barreiros, o autor de A Verdadeira Invasão dos Marcianos.

Asher

Tendo como ponto de partida, o século XXII da nossa era, muito rapidamente imergimos numa civilização sofisticada que é um prolongamento do mundo em que hoje vivemos. Polly uma prostituta junkie ver-se-á perseguida por um clone de um agente da CIA morto há duzentos anos, ao serviço do governo do Domínio Heliótico. Usada com isco para a transacção de um tor é sugada para trás no tempo juntamente com Tack, o seu perseguidor, numa viagem que se estende através de eras em conflito. O Domínio Úmbrico luta por um tempo alternativo, mas o mais temível adversário é Cogula, instalado no vértice temporal em que a vida molecular começa a desenvolver-se na Terra… Um livro pleno de imaginação, empolgante e vertiginoso.

Os aficionados de FC têm agora a oportunidade de conhecer a obra de um dos autores mais interessantes da última década.

PS-> E para quando está prevista a publicação de Altered Carbon de Richard Morgan? Tenho a ideia de que já deveria ter sido lançado há bastante tempo.

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Eternidade

E a estrear a secção Ficções da Épica, eis que João Ventura nos oferece um conto onde propõe uma interessante invocação de um passado medieval que acompanha os primeiros passados dados na Imprensa por Gutenberg. Mas por trás do fascinante ambiente dos primeiros livros e bibliotecas, escondem-se obscuras tentativas de libertar a Humanidade da morte

Pode ler o conto, acedendo ao link.

ETERNIDADE

por

João Ventura

A porta é sólida. O revestimento, em talha finamente trabalhada, foi recuperado de uma abadia medieval, bombardeada durante a 2ª guerra mundial e quase totalmente destruída. Por debaixo da madeira polida pela passagem dos séculos é uma porta corta-fogo. Para mim não tem importância, mas é bom saber que os livros estão protegidos. A sala tem acesso reservado e por cima da porta está escrito: IDADE MÉDIA EUROPEIA.

A sala é grande. Prateleiras com livros até ao tecto formam corredores estreitos. A espaços, pequenas mesas de trabalho, providas do necessário: luz, terminal com gravador áudio e vídeo, scanner… Reina o silêncio, apenas perturbado pelo zumbido dos sistemas de climatização. Ao longo dos corredores, no tecto, o piscar vermelho ritmado dos detectores de incêndio.

Num dos extremos da sala há um conjunto de prateleiras com o rótulo: OCULTISMO, e numa delas, precisamente a terceira, quase na extremidade direita, está o Livro. E junto dessa prateleira, estou eu. Vigilante. À espera.

Não é possível definir o que eu sou. Alguns poderiam considerar-me um espírito, se a velha dicotomia corpo-espírito não fosse tão tosca. Sou uma… Presença, algo tão real como qualquer das pessoas que se movimenta por estes corredores e salas, mas de detecção impossível mesmo pelos mais sofisticados sensores.

A biblioteca é enorme. Por vezes, durante a noite, quando posso interromper a minha vigilância (a sala encerra ao fim da tarde), percorro-a demoradamente. Sempre me fascinaram, as bibliotecas. E esta, a Biblioteca da Europa, é uma das maiores existentes actualmente, contendo milhões e milhões de livros nos seus enormes bancos de dados. Desde a lei aprovada pelo Parlamento Europeu em 2020, as árvores são consideradas demasiado preciosas para serem destruídas apenas para fornecer suporte para informação. Abater uma árvore sem autorização é crime, punido com prisão e multas pesadíssimas. Contrabando ou venda ilegal de madeira ou papel envolve igualmente severas penas.

Dos livros em papel, os mais antigos estão guardados em salas de acesso reservado; só os possuidores de um passe A1 podem manusear esses livros de produção artesanal, anteriores à difusão em massa do século vinte. Os utilizadores normais têm de contentar-se com a leitura de um facsímile num dos muitos monitores espalhados pela biblioteca.

Mas nem sempre foram assim, as bibliotecas.

Eu vi-as evoluir, desde as salas escuras onde frades medievais, à luz de velas, copiavam textos e pintavam iluminuras em pergaminho, repositórios de conhecimento numa época em que este era escasso. Vi-as queimadas por multidões fanáticas e pacientemente reconstruídas por estudiosos dedicados, observei (e participei) em diversas batalhas da eterna guerra entre a luz e as trevas, entre o conhecimento e a ignorância. Foi essa minha paixão pelo conhecimento que fez com que eu estivesse junto de Gutenberg antes de ele imprimir a famosa Bíblia; sim, porque houve um livro impresso antes da Bíblia, e é por causa desse Livro que eu estou aqui, à espera. Porque Eles decidiram que eu seria o Guarda do Livro.

—— x ——

Encontrei Johannes Gensfleisch, conhecido por Gutenberg, em Estrasburgo, corria o ano de 1435. Ele trabalhava então na lapidação de pedras preciosas, e eu era já um adepto, um iniciado na filosofia alquímica. Longas tardes passei na sua oficina observando o seu trabalho paciente de redução de uma gema às dimensões perfeitas, derivadas dos sólidos pitagóricos. Comprava-lhe pó de diamante, que utilizava nas minhas manipulações. Sendo o diamante a pedra perfeita, pensava eu que teria uma influência positiva na Grande Transmutação.

Dois anos mais tarde acabou com o negócio da lapidação e passou a interessar-se pelo fabrico de espelhos… Eu, pela minha parte, tinha começado a duvidar da validade dos métodos que utilizara até então. Aquecimentos, destilações e condensações, misturas e separações cada vez me apareciam mais como caminhos sem saída, e a simples visão dos fornos, retortas e alambiques colocava no meu espírito uma questão insidiosa: Para quê? E regressei à leitura das obras de Roger Bacon, do Corpus Hermeticum, das traduções dos originais árabes e gregos, agora numa perspectiva menos literal e mais simbólica, com a convicção cada vez mais forte de que esta leitura “subterrânea” era a mais adequada à compreensão dessas grandes obras, com o objectivo de atingir o verdadeiro conhecimento.

—— x ——

Há algumas semanas, um homem entrou na sala pela primeira vez. Nada de estranho, em princípio seria apenas mais um investigador… Mas em relação a este, senti imediatamente a inquietação, o fogo interior; muito diferente dos outros, onde apercebo a simples preocupação com a tese que andam a escrever ou com o artigo que estão a preparar. Olhou em volta, e dirigiu-se sem hesitação para a zona do Ocultismo. Mais um em busca do Caminho.

Tenho acompanhado o seu trabalho dia a dia. Lentamente, vai talhando um percurso no labirinto dos textos herméticos. Por duas ou três vezes já chegou a becos sem saída; não desiste, volta atrás à citação obscura, procura uma interpretação alternativa, começa numa nova direcção. Os Mestres deixam muitas vezes falsas pistas destinadas a testar os que procuram o Caminho, a separar o trigo do joio. São precisos conhecimento, discernimento e força de vontade para descobrir essas armadilhas e manter os passos na vereda que leva à Luz.

—— x ——

Lembra-me aquele que eu fui, há centenas de anos. Depois de firmemente convencido que a descrição das manipulações laboratoriais eram apenas uma cobertura que ocultava o verdadeiro texto iniciático, voltei a ler os Mestres com atenção redobrada. Razões familiares – outros diriam o Destino – fizeram com que me deslocasse para Mogúncia, onde passei a viver. Um pequeno pecúlio herdado dos meus pais permitia que pudesse dedicar todo o meu tempo ao estudo intenso das grandes obras alquímicas. E quase sem o saber, quando o meu espírito se tinha despojado de tudo o que não fosse a paixão pelo conhecimento, descobri o Caminho!

Uma alegria sem limites apoderou-se de mim. A libertação da morte era um objectivo tão transcendente que a minha ideia foi imediatamente divulgar o Caminho.

Coloquei mais lenha na lareira, acendi uma vela nova e sentado à minha mesa de trabalho, comecei a escrever a descrição dos procedimentos a executar por quem quisesse atingir a imortalidade. Quando terminei, a lareira estava apagada, a luz do dia começava a entrar pela janela e à minha frente tinha um molho de folhas com a descrição do Caminho. Atirei-me para cima da cama e dormi um sono esgotado mas tranquilo.

No dia seguinte saí de casa e passeei pelas ruas, sem destino. Um problema dançava na minha cabeça: como fazer chegar às pessoas o conhecimento do Caminho. Era dia de mercado, e atravessando a praça, passei junto da banca de um mercador de metais, que negociava com um cliente; para minha surpresa, o cliente era Gutenberg, que eu não via há vários anos. Saudámo-nos efusivamente e decidimos celebrar o nosso reencontro. E alguns minutos depois, estávamos sentados a uma mesa da Estalagem do Cavalo Branco, e o estalajadeiro colocava à nossa frente pão de centeio, queijo de ovelha, um jarro de cerveja e dois pichéis.

Soube então que Gutenberg tinha começado a trabalhar com um novo processo de impressão, compondo o texto com caracteres móveis fundidos em metal. A técnica tinha vindo do Oriente; ele não me disse como tinha chegado ao seu conhecimento, mas contou-me que tinha introduzido alguns aperfeiçoamentos. Da algibeira do gibão tirou um objecto embrulhado num lenço, que abriu com cuidado: era a Ars Minor, uma gramática da autoria de Aelius Donatus, livro de pequeno formato para uso dos estudantes de Latim, impressa com a nova técnica. Folheei-o com interesse: a qualidade de impressão era notável. E assim, a solução para o meu problema vinha ter comigo: com esta invenção poderia fazer centenas, milhares de cópias e desta forma, atingir mais rapidamente o meu objectivo – libertar a humanidade da morte! No fim do segundo jarro de cerveja, tinha persuadido Gutenberg a imprimir o meu livro.

—— x ——

O novo estudioso continua a fazer progressos na sua pesquisa. Consigo sentir as suas fases de desânimo e de entusiasmo. É metódico, esforçado, e conhece, além do latim, o grego, o árabe e o hebraico, o que lhe permite ir directamente às fontes em vez de ter de confiar em traduções, muitas vezes incorrectas, que induzem o leitor em erro.

—— x ——

O processo de impressão avançou bem. Gutenberg estava quase tão entusiasmado como eu próprio. Até que chegou o dia em que terminámos a encadernação de todos os exemplares da primeira edição. Era tarde, despedimo-nos e fui para casa, levando comigo o primeiro exemplar que tínhamos produzido.

Alta noite, fui acordado com fortes pancadas na porta da rua. Era um mensageiro da parte de Gutenberg – a oficina estava a arder. Corri para lá e deparei-me com uma visão infernal: todo o interior estava em chamas, que saíam pela janela e pela porta. Já os vizinhos se tinham organizado e formado uma fila, passando baldes de água desde o chafariz localizado ao fundo da rua. Mas parecia que, cada vez que a água caía sobre as chamas, estas redobravam de intensidade. No final, todos os esforços foram em vão. O incêndio foi extinto de madrugada, tendo consumido as pranchas, os livros, tudo. No meio da desolação calcinada do que tinha sido a oficina de impressão, o desespero era o meu sentimento dominante. Tão perto, e agora outra vez tão longe…

Gutenberg teve uma crise de arrependimento, considerou que O Caminho era um livro herético e que o incêndio havia sido um castigo divino. Como uma penitência auto imposta, começou a compor a Bíblia latina; quando a terminou, aceitava com gratidão encomendas da Igreja para imprimir indulgências, querendo assim redimir-se do pecado que – achava ele – tinha cometido.

—— x ——

Quanto a mim, Eles, os responsáveis do incêndio, revelaram-se pouco tempo depois. Eram os Imortais, e tinham seguido a minha actividade desde as primeiras tentativas no domínio da alquimia. Viram-me descobrir o Caminho e atravessar a Passagem, dessa forma tornando-me imortal, igual a Eles; deixaram-me escrever o Livro e imprimi-lo. E então provocaram o incêndio, para destruir todos os exemplares, excepto o primeiro a ser encadernado que eu tinha levado para casa. Com o seu perverso sentido de humor, e como castigo por ter tentado divulgar o Segredo, condenaram-me a guardar o Livro per saecula saeculorum… ou até Eles quererem. Com a missão de eliminar todos os que o lerem!
Tentei recusar, mas os tormentos que me infligiram cedo me fizeram obedecer. Os Imortais podem ser muito persuasivos… Para quem é eterno, felicidade, sofrimento, horror, são conceitos muito relativos… Ainda hoje evito pensar naquilo por que passei nessa altura.

No princípio, sofria muito sempre que tinha de matar alguém. E não foram poucos; a procura da vida eterna nesses tempos era um assunto muito sério. A um forcei-o a saltar do alto da torre da igreja; a outro, fiz com que cortasse as veias com a sua própria adaga. Ainda outro, induzi-o a misturar veneno no vinho que ia tomar à refeição e a bebê-lo de um só trago. Depois fui-me habituando e fui também refinando os meus processos. Aprendi muito sobre o funcionamento do organismo humano; é um sistema tão vulnerável, com tantos pontos fracos…

Quando percorro a biblioteca, interessa-me especialmente a área científica. Acompanho tudo o que se faz em relação ao prolongamento da vida, apesar de a direcção ser errada. Bioquímica, biologia molecular, genética, tudo isso me lembra as minhas tentativas toscas com os métodos da alquimia. A solução está noutro nível, na manipulação do espaço-tempo. Porque a matéria não é mais do que o espaço infinitamente denso. No século XX houve alguém que vislumbrou o problema, mas quando se apercebeu das implicações, achou que a bomba nuclear era uma arma menos perigosa. Talvez tivesse razão…

Lentamente, com o passar dos séculos, fui desenvolvendo um critério em relação ao método a usar. Se é alguém generoso que procura o Caminho, se sinto que nele existe o amor pelo seu semelhante, sou rápido e eficiente: nem chega a sentir quando a vida o abandona. É como accionar um interruptor.

Mas quando sinto em algum deles a sede do Poder, é diferente… Como o que veio antes deste, já não sei há quantos anos! Sentia-se o mal à sua volta. Deixei-o progredir ao longo das estantes, senti a sua excitação aumentar, permiti que descobrisse o Livro, vi-o encher-se de triunfo ao ler a descrição do Caminho. Quando ele ia começar a tomar notas, bastou-me eliminar alguns neurónios numa região específica do cérebro e pronto – ficou imobilizado como num instantâneo fotográfico. Caiu ao chão. Eu sentia a agitação na sua mente, o desespero de quem descobriu o Caminho e não o pode percorrer!

Ficou no chão até ser encontrado mais tarde por um funcionário da biblioteca que passava numa inspecção de rotina. Este contactou imediatamente a emergência médica e depois de o pessoal da ambulância o ter levado, arrumou cuidadosamente tudo o que ele tinha estado a consultar. No hospital onde foi internado, sobreveio-lhe uma febre altíssima e morreu ao fim de uma semana. Tecnicamente esteve em coma, mas a autópsia não identificou a causa. Penso que deve ter enlouquecido quando se deu conta que os seus contactos com o mundo exterior estavam definitivamente cortados, e que acabaria por morrer literalmente à vista da Passagem.

Mas ultimamente tenho-me aborrecido muito. O interesse pela literatura hermética tem diminuído. Passam-se anos sem ver uma cara nova neste sector. E o tédio é um sentimento tão desagradável…

Lá vem de novo o que procura o Caminho. Já não deve demorar a chegar ao fim da sua busca. Tenho que decidir a forma como o vou eliminar. Enfim, alguma coisa para me ocupar, ao fim de tantos anos…


Para os interessados em submeter textos à Épica, poderão enviar as vossas contribuições para o mail epica@netvisao.pt .Aceitam-se outras formas literárias que não o conto, conquanto a temática se limite ao fantástico. Os contos não deverão exceder 3000 palavras.

Os melhores textos que forem surgindo ao longo do ano 2005 serão publicados em versão bilingue na Acta do II Encontro Português do Fantástico a realizar em Novembro deste ano.

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Talvez por nostalgia perante o anúncio de que o quarto filme da série Terminator não incluirá o agora Governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger, o exército dos Estados Unidos planeia enviar para o Iraque os primeiros dezoito “soldados-robô”.

Custando 200.000 dólares cada (ou seja, economicamente mais que um soldado humano, mas politicamente menos), trata-se de um modelo baseado nos já usados para o controle anti-minas. Controlado remotamente por um soldado de infantaria, este modelo permite uma maior precisão de fogo, mesmo em ambiente nocturno.

Seguindo a crescente “desumanização” da guerra moderna, o fabricante anunciou a sua intenção de substituir os comandos actuais por um controle tipo-Gameboy e óculos de realidade virtual.

Não deixem de o ver em acção, aqui.

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Novidades Brasileiras

Provavelmente o actual campeão da persistência no campo da edição lusófona amadora de literatura fantástica, o magazine Scarium, que está a entrar no terceiro ano de publicação regular, lança a partir de agora a sua crónica Balaio em formato pdf. Desde o início da responsabilidade do vice-editor Rogério Amaral de Vasconcellos, a sétima edição do Balaio pode ser encontrada aqui.

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Léon Arsénal

E pelas mãos da Editorial Presença, a colecção Via Láctea acaba de publicar Máscaras de Matar do espanhol Léon Arsénal. A obra, vencedora do Prémio Minotauro – Prémio Internacional de Ficção Científica e Fantástica – retrata o mundo imaginário dos Seis Dedos onde

coabitam diversos povos, culturas e tradições formando uma sociedade que é, ao mesmo tempo, fascinante e cruel, na qual as máscaras desempenham um papel crucial pois “permitem a um mesmo indivíduo assumir papéis diferentes e, em certos casos (…) isso liberta-o de certas obrigações”. Os habitantes de Os Seis Dedos são ávidos amantes das suas tradições e nada lhes dá mais satisfação que desfrutar dos prazeres do vinho, do tabaco e da comida, enquanto conversam com os seus camaradas. Porém, este é um mundo de fronteiras e contrastes; um lugar instável onde a qualquer momento e à mínima ofensa, os ânimos se exaltam e o sangue é derramado. É por isso, uma região fortemente hostilizada por batalhas violentas e sanguinárias.

matar

Destaque-se a aposta da editora na literatura fantástica espanhola, que promete estar ao nível da qualidade geral da Colecção Via Láctea.

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